20 dezembro, 2007

FÉRIAS

Este blog não é professor, mas também ganha pouco e entra em recesso, de maneira que armarei a rede hoje e só voltarei a desarmá-la em janeiro, se o bom Pai assim desejar.

Aliás, por falar n’Ele, caso ainda acreditem no Senhor, peçam ao Onipotente, em suas orações, para não usar tanto de sua caridade e misericórdia para comigo no ano vindouro. Sei que o pobre está um tanto velho, mas tentem explicar a Ele que não sou Jó, por obséquio.

Espero que tenham umas boas entradas e felizes bandeiras. Abraço a todos — sobretudo a todas — e até o próximo ano.

13 dezembro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (FIM DA PRIMEIRA PARTE)


Diante daquela cena, Jesus, cujos recentes acontecimentos [Atendendo a pedidos de fãs do presidente, explicamos: "acontecimento", em linguagem culta, também tem o sentido de "peripécia", "façanha", "aventura"] haviam deixado completamente confuso, se viu como se inteiramente dentro de um livro de Milton: no Paraíso, perdido. Estava certo de que através de algum processo taumatúrgico próprio dos deuses pagãos, o filósofo tinha se metamorfoseado no dramaturgo. Em profundo choque, parecia o governo ou o cabelo de Tônia Carrero: não conseguia se mexer. Somente após alguns instantes, levantando-se, falou:
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— Só... Sócrates?
— Xingamento não, hein? — rebateu Aristófanes, aproximando-se do Senhor. — Tô morto, mas exijo respeito.
— Quem é você?
— Quem é você pergunto eu. Peraí. Essa barba, esses pés, esses cabelos longos... Safo, como você emagreceu!
— Hilário. Prazer, Jesus.
— Ah, o filho do Homem.
— Não, o Filho do homem, a maiúscula é no “f”.
— Taí uma coisa que nunca entendi. Isso e a Santíssima Trindade. Vocês fizeram uma religião muito complicada, rapaz.
— Vocês, vírgula. Culpa de Paulo. Por mim, tinha me mantido no judaísmo mesmo, sabe? Tudo bem, tem aquele lance de não comer carne de porco mas, enfim, é melhor do que comemorar o Natal em família. Peraí, você é grego?
— Um dos últimos. Aristófanes.
— O comediógrafo? Cê sabe que na Índia eu assisti a uma montagem de “Lisístrata”? Lembro até que, na época, Madalena comentou: “Tá vendo o que eu vou fazer se você resolver salvar o mundo de novo?”
— Boa. Você não teria visto Ésquilo por aí?
— Não. Mas, vem cá, você pode me explicar o que tá acontecendo por aqui? Sério. Agora entram maometanos, gregos, até deuses pagãos no Céu!
— Eu entendo a sua revolta. Venho lutando contra o relativismo cultural você não era nem nascido, meu jovem. Depois do século XIX , nem Deus escapou. Dizem até que Nietzsche teria acorrentado teu pai e agora seria o comandante do Paraíso...
— Impossível, falei com Papai há pouco.
— Bom, é o que espalham por aí. Eu também não dou ouvidos à Fama.
— Tá, tudo bem. E como é que você veio parar aqui, pode dizer?
— Então... Há alguns séculos já os caminhos que ligam o Hades ao Céu cristão foram desimpedidos. Que se há de fazer? Há muito antropólogo no mundo.
— Isso quer dizer que você sabe como sair do Céu?
— Ora, mas é claro. Por quê?
— E saberia como chegar à Terra?
— Não diga! Você quer voltar lá? Que é que você quer fazer lá, por Apolo?!
— Ajuda ou não ajuda?
— Claro. Com uma condição.
— Qual?
— No caminho eu te explico...
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Aristófanes indicou a ponta da praia oposta à praça em que o Senhor estivera antes com os patriarcas, e os dois seguiram caminhando pela beira da praia. Já tinham se afastado bastante quando a cabeça de Sócrates ressurgiu de debaixo da terra. Cuspindo areia, o filósofo lamentou:
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— Por Atena! Antigamente eles pelo menos ofereciam cicuta antes de enterrar a gente!

CAPÍTULOS ANTERIORES
Capítulo 14
Capítulo 13
Capítulo 12
Capítulo 11
Capítulo 10

11 dezembro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (14)


Sócrates olhou para todos os lados, certificando-se de que estavam sozinhos. Em seguida, sussurrou:
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— Trata-se de uma disputa.
— Disputa? Bem que eu desconfiava. Os hereges e pagãos querem tomar de assalto o nosso Paraíso.
— Não é nada disso.
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O filósofo voltou a perscrutar ao redor. Após o quê, sussurrou novamente: .
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— Cartas...
— Cartas conspiratórias, é isso? Você vem trazendo cartas conspiratórias do Hades. Meu Deus! O Pai precisa ser avisado. O profeta tá envolvido nisso?
— Tá.
— Meu próprio primo!
— Primo? Não sabia que você e Maomé eram parentes.
— Maomé? Então, Maomé faz parte da sedição? Claro! Tudo faz sentido. Acabo de descobrir, sem querer. Na verdade, quando disse “profeta”, tava me referindo a João.
— O Batista também joga?
— Não se faça de desentendido. Por isso Karl Marx tava com ele essa manhã...
— Marx? Peraí, mas desse jeito já tem seis. É gente demais.
— Que seis? Sei o quê?
— Seis jogadores: eu, Maomé, João Batista, Marx, Moisés e Abraão.
— Do que é que você tá falando, afinal?
— Do jogo de cartas que a gente tem toda semana! Eu, Maomé, Moisés e Abraão. Que é que você pensava?
— Esquece...
— Bom, tenho que ir. Pela montanha estacionada, vejo que Maomé já chegou. Lembrança aos seus pais.
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Sócrates se levantou, repôs a túnica no corpo e, apertando a mão de Jesus, se preparava para retirar-se quando se ouviu um grito:
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— Olha a cabeça!
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Pensando que era Deus com sua mania de se disfarçar de nuvem e lançar raios sobre os outros em momentos de raiva, Jesus se atirou de lado e rolou pelo chão. Sócrates, por sua vez, permaneceu no mesmo lugar.
Talvez por estar acostumado, afinal Javé pode até ser um tanto ou quanto irado, mas em matéria de lançar raios, como é notório, não há páreo para Zeus. Intrigado, o filósofo apenas levantou a cabeça na direção da voz, perguntando:
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— Quando você diz “cabeça” se refere à minha própria? Ou estaria você falando da de...
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Não chegou a completar a frase, porque naquele instante, não um raio, mas um homem despencou das nuvens e atingiu em cheio o cocuruto do filósofo, que desapareceu sob a areia.
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Qual não foi, portanto, o assombro do Nazareno quando, reabrindo os olhos e procurando o grego, viu, em seu lugar, o sujeito que caíra sobre ele e que, já de pé e batido o pó da túnica, mirava as nuvens, em posição muito semelhante àquela em que estava o outro antes de ser tragado pelo chão.
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— Sóc... Sócrates? — perguntou o Senhor, cabreiro.
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E mais surpreso ficou quando, ao virar-se o homem para ele, constatou estar diante de Aristófanes. (CONTINUA)

10 dezembro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (13)


— Alguém me ajude! Socorro! Por favor, alguém me ajude! — expunha silogisticamente sua posição Sócrates.
Mas, experimentado em dialética desde os tempos de Ulisses, o mar o envolvia com líquidos argumentos por todos os lados e o fazia debater em vão. Ao final da peleja oratória, teria findado fatalmente por calar o filósofo. Isso, caso Jesus, que via a cena de longe, não tivesse falado:
— Levanta-te e anda!
— Ha! — respondeu o filósofo, ainda se afogando. — Pra você é fácil falar. Mas eu sou cético.
— Não, sua besta! Não se trata de milagre. É que a gente tá no raso. Já dá pé.
— Ah... — sorriu amarelo o zetético, cessando o desespero e fazendo em seguida o que o Mestre lhe havia dito.
Chegando à praia, Sócrates tirou a túnica e se jogou na areia, resfolegando. O Filho do homem juntou-se a ele pouco depois, algo irritado:
— Por que vocês gregos têm essa mania de tirar a roupa o tempo todo, hein? Será possível que vou ser obrigado a ficar vendo o teu não-circuncidado aí?
— Grande coisa!
— Grande? É fácil dizer isso quando se tem prepúcio. Queria ver você diante de São Serapião. Agora, vem cá, será que você pode me explicar uma coisa? Que esculhambação é essa, ahn? Primeiro Maomé, depois Vênus...
— Afrodite! Olha o romanismo.
— Afrodite, tudo bem. Mas será que você pode me explicar o que é que tá fazendo aqui?
— Ué? O que eu tô fazendo aqui! O que é que você tá fazendo aqui! Nunca te vi por essas bandas...
— Bom, eu estar aqui talvez tenha certa relação com o fato de ser o filho de Deus e estarmos no paraíso cristão.
— Iiiihhh... Lá vem ele com esse papo de religião.
— Era só o que faltava. Você vai me dizer que a gente tá no Hades, por acaso?
— Que mané Hades! Tu ainda tá nessa, rapaz? Não nega que é um cristão do primeiro século, todo influenciado por helenismos.
— Tá, tá. Agora, quer me fazer o favor de dizer o que você tá fazendo aqui?
— Como você é mal-agradecido! Depois de tudo o que Platão e Aristóteles fizeram por você, graças a mim! É assim que você me recebe? Nietzsche me livre!
— Tudo bem. Não precisa se irritar. Só quero entender o que tá acontecendo.
— Você seria capaz de manter um segredo mesmo sob tortura?
— Sim.
— Duvido. Foi só os romanos darem algumas porradas pra você ir logo confessando ser Filho de Zeus, rei dos judeus, o escambau.
— Verdadeiramente hilário. Agora, diga: que segredo é esse?
— Antes, responda: qual é a prerrogativa de todo segredo?
— Prerrog... Que ele permaneça secreto, claro.
— Logo, se um segredo é contado, o que acontece?
— Ele deixa de ser secreto.
— Donde se conclui que um segredo não pode ser transmitido, certo?
— Certo.
— Ora, sendo assim, como você pede que faça algo que, uma vez realizado, destruirá a própria essência do ato? (CONTINUA)

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Capítulo 12
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Capítulo 10

07 dezembro, 2007

CLÁSSICO MITOLÓGICO (2)


— Mino, independentemente do resultado do jogo de hoje, o fato é que você tem fãs espalhados por todas as ilhas, todo o mundo te teme. Tenho impressão de que o público se interessaria por ver seu lado mais humano...
— Bom, Apô, meu lado mais humano tá aqui, ó: ali temos os pés, aqui as coxas, o pinto...
— Não, não! Quer dizer, gostaria de saber o que você faz nos momentos de folga, por exemplo.
— Ah, eu gosto de comer uma virgem. Ou melhor, sete virgens.
— Assim, de cara? Você não toca uma lira, não toma uma cratera de vinho de Falerno, não passa uma cantada...?
— Bom, cantar eu canto. Veja bem, gosto muito daquela música do Monsueto: (cantando) “Mora... na mitologia...”
— Sei. E você curte a night?
— Não, prefiro curtir pela manhã. Abro meu coração com você, Apolodoro, que é um homem que tem história. Ultimamente, não tenho visto a luz no fim do túnel, sabe?
— Que é isso. Relaxa, bicho. Boa sorte pra você. Bom, Hê, dá pra perceber duas pontas de melancolia nas palavras do Minotauro. É com você.
— Muito obrigado, Apolodoro. Do que acabamos de escutar, uma certeza ao menos fica: o Minotauro certamente está com uma pulga atrás da orelha. Ou isso ou berne, o certo é que deu para ouvir daqui ele se coçando. Mas agora está com o heróico Teseu aquele que é o mais dialético dos repórteres esportivos: Zenão de Eléia. Não é isso, Zenão?
— Estaria, Hesíodo. Isso, se eu conseguisse me deslocar até ele.
— Muita gente atrapalhando o caminho?
— Não, ninguém. Mas o fato é se pegarmos a distância que vai de mim até onde tá o filho de Parsifae e separá-la em pequenos espaços do tamanho dos meus pés, cada passo equivaleria...
— Tá, tá. Tudo bem, Zenão, então pergunta daí mesmo!
— Muito bem, vou gritar. Teseu! Teseu! A pitonisa disse que você vai sair vencedor da batalha. Como você se sente?
— Bem, Zenão, você sabe perfeitamente que a mitologia é uma anforazinha de surpresas. Ora, se os mistérios ganhassem jogo, os campeonatos em Delfos terminariam sempre empatados.
— Verdade. Mas qual será sua estratégia para esta tarde?
— Tentaremos entrar na cancha adversária com cuidado. A princípio, vamos ser colocados contra a parede, eu sei, mas vamos tentar não perder a linha e ir avançando de pouco em pouco.
— Você conta com a impaciência do Minotauro, então?
— Sem dúvida. No final, quem mantiver a cabeça no lugar sairá vencedor.
— Para terminar, uma última pergunta, Tesa: quais são os afluentes da margem esquerda das amazonas? Uh, uh. Sacaneei. É com você, Hesíodo.
— Muito bem, amigos, o arconte vai apitar e... é iniciada a partida. Teseu parte para o ataque, entra no campo adversário e... Ué? Onde é que eles tão? Os dois oponentes andam muito sumidos no jogo, Eurípides.
— Oh, Hê, tenho um terrível pressentimento!
— Aristófanes?
— A culpa é de Cleon! A culpa é de Cleon!

05 dezembro, 2007

CLÁSSICO MITOLÓGICO


— Muito bem, amigos helenos, eu sou Hesíodo e você está ligado na Rádio Atlas. (entra vinheta da rádio) “Rádio A-tla-tla-tlas. Levamos o mundo do esporte greco-romano até você. E levamos sobre os ombros”. (voltando a falar) Estamos aqui hoje em mais uma epopéia esportiva para transmitir direto de Creta aquele que é um clássico da mitologia contemporânea. Nesta tarde, a equipe de Teseu enfrenta a do Minotauro. Irá o herói ático derrotar a fera insular e interromper sua seqüência de vitórias que já dura anos? É o que todos se perguntam. Aqui, ao meu lado, o comentarista do hexâmetro abalizado, Eurípides. E então, Eurípides, que você acha do enfrentamento de logo mais?
(com uma máscara teatral no rosto) Oh, Zeus, calar-me-ei, ó Heríodo! Nada direi de momento tão desazado, pelos deuses inclementes!
— Deixa de tragédia, Eurípides.
— Ó Hêsi, digo que teremos de esperar até o último momento para afirmar que este ou aquele foi feliz! Que os deuses a ambos sejam propícios!
— Não quer arriscar um vencedor, então?
— Quem vence, não sei. Mas o perdedor sofrerá e lamentar-se-á bastante no final. Oh!
— Muito bem. À minha esquerda, a língua mais afiada do mundo banhado por Oceano: Aristófanes. E aí, Ari, quais são suas impressões?
— Minha impressão, aliás, minha certeza é que a culpa é de Cleon, aquele demagogo.
— Como? Não, digo, a respeito do jogo de logo mais. Quem sairá vencedor?
— Acho que perde Atenas.
— O Minotauro vence, então?
— Sei lá. Mas com a subida de Cleon ao poder, Atenas perde, isso é certo.
— Não quer arriscar? Vai fazer como Eurípides?
— Não me xinga, hein? Você por acaso tá me vendo com gestos efeminados, compondo maus versos ou querendo dar a...
— Err... Bom... Os dois times adentram o anfiteatro. Vamos até lá, ao palco do espetáculo, onde está Apolodoro. Apolodoro, é com você.
— Boa tarde, ouvintes. Me permitam, antes de mais nada, meter a mão nessa discussão, pois os talheres não são usados ainda. Começo dizendo que o mundo dá muitas voltas, porque...
— Desculpe, Apolodoro, mas o mundo é plano.
— Não, meu caro Hesíodo, o mundo gira ao redor do sol, já dizia Aristarco de Samos.
— É plano!
— Gira!
— Gira é você! Maluco!
— Posso ser maluco, mas pelo menos não sou cego!
— Cego? Cego é Homero, seu animal! De mim, o máximo que se pode dizer é que seja beócio! Você... (constrangido, percebendo que está no ar) Hum... Peço desculpas, Apolodoro.
— Não hades ser nada. Bem, por falar em animal, estou aqui com ele que é conhecido por não ter hierofantes na língua, the one and only...
(interrompendo) Por favor, Apolodoro, peço em nome dos ouvintes que não use a língua dos bárbaros.
— Ora, tô aqui com o Minotauro. E então, Mino, como vão as coisas?
— Olha, mais ou menos. Às vezes, eu me sinto assim meio sem saída...
— E esse babado aí?
— Desculpe, não foi minha intenção.
— Não, digo, esse babado, esses boatos que andam espalhando sobre seu pai.
— Olha, Apô, Teseu pode dizer que meu pai tinha cornos, eu aceito. Mas, pelo menos minha mãe não era uma vaca, como a dele. (CONTINUA NA SEXTA-FEIRA)

03 dezembro, 2007

NICOMAR LAEL

Conheço o dr. Nicomar Lael há cerca de 33 anos. Tempo suficiente para que nossa amizade tivesse pregado a paz, sido perseguida pelos hereges e morrido na cruz.

No entanto, infelizmente, não foi o que aconteceu. Assim, sou obrigado a suportar o sujeito até nossos dias, sem que conte ao menos com um mísero seguidor.

Trata-se o dr. Nicomar Lael de gente de hábitos os mais esquisitos, ainda que o leitor encontre quem diga ser eu o estranho e o dr. Nicomar Lael, pelo contrário, a mais normal das criaturas — coisa que contesto veementemente, só não tomando as medidas cabíveis porque a esta hora os portões do manicômio já estão fechados.

Ora, passaria dias escrevendo sobre a ignóbil criatura, caso não tivesse ojeriza a palavrões e, sobretudo, a processos por calúnia e difamação. Pouco acrescentaria ao quase nada que dele já se sabe, é verdade. Afinal, ainda que tenha sido obrigado a suportá-lo por décadas, dele sei tanto quanto consigo calcular uma matriz.

Digo isso para deitar a crônica de hoje na gaveta e convidar o leitor a, em lendo o facínora, tirar suas próprias conclusões.
Sim, eis que cansado da vida nababesca de magistrado dedicado a causas solertes, o dr. Nicomar Lael acaba de abrir
uma bodega.

29 novembro, 2007

NO CORREDOR


— Ai, meu pé!
— Você diz isso por preconceito.
— Como? Você pisou no meu pé, Armina!
— Tudo bem. Mas precisava reagir desse jeito?
— Você preferia que eu dissesse “uh”, por acaso? Uh, continua doendo! Foi bem no ded...
— Não é o “ai”, Botero, é a maneira como você fala.
— Que é que você disse? Ai, digo, uh, essa agora foi...
— Eu disse que esse seu “ai” tá carregado de preconceito sexual.
— Se tem uma coisa contra a qual não tenho preconceito é sexo, Armina. Pelo contrário, gosto muito. Você é que às vezes...
— Preconceito contra o sexo! Machismo! Você é contra o meu sexo!
— Se é o que eu prefiro!
— Olha a brincadeira. Tô falando sério. Através desse seu “ai” se vê toda a sua misoginia.
— Duvido.
— Pois saiba que é verdade.
— Não, duvido que você saiba o significado de misoginia.
— Isso, brinca, vai brincando.
— Armina, pelo amor de Deus, Armina, eu não acredito que você... Essa agora, a pessoa inferir uma série de... Pfff.
— Olha aí!
— Ahn?
— Esse seu “pfff”, Botero. É disso que venho falando. Dessa sua dificuldade para aceitar o outro.
— Que outro? Fala, Armina! Tem alguma coisa que você quer me contar?
— O outro, a alternativa, Botero. Isso tem tudo a ver com a sua criação.
— Não bota a mãe no meio que eu boto no meio da sua.
— Quanta maturidade!
— Tudo bem, Armina, prometo que da próxima vez eu uso uma interjeição nova no lugar de “pfff”. Quem sabe “splectpei” ou coisa do tipo. Agora, por favor, será que eu posso passar pra cozinha pra pegar gelo e evitar que meu dedão fique igual ao busto do Marco Maciel? Puxa!
— Incrível.
— Que foi, agora? O “puxa”? Vai implicar com meu “puxa”? Vai me dizer o quê? Que ele demonstra todo o meu desprezo pelos manetas?
— Seu desprezo pelo diferente, Botero.
— Entendo. Já você tem amor ao igual, né? Por exemplo, quer que meu dedão fique igual ao joelho. Será que dá pra sair da frente?
— Sinceramente.
— Putz!
— Olha aí!
— Sai.
— Não.
— Armina, eu... Uaia! Uaia! Você pisou no meu dedão de novo!
— Uaia, não, hein? Uaia, não!

28 novembro, 2007

LUTA DE CLASSES NA VILA MADALENA

A crônica de hoje se encontra no Culturando.com, site que tem toda a programação gratuita ou a preços marconianos de São Paulo. Para lê-la, clique aqui.

Para não lê-la, clique aqui. Ou aguarde na linha dizendo Für Elise bem alto que um dos nossos funcionários irá atendê-lo.

27 novembro, 2007

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (7)


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Tudo bem que na República de Platão não havia poetas. Mas também não havia jornalistas.

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Lulistas e antilulistas têm pelo menos uma coisa em comum: a fé.

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O Ministério Público é a salvação da pátria. Desde que persiga apenas nossos inimigos.


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Como assim não dou amor ao próximo? Por acaso você conhece alguém que esteja mais perto de mim do que eu mesmo, minha filha?
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Existe apenas um tipo mais americano que o próprio estadunidense: o brasileiro em férias nos Estados Unidos.

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Se fosse você teria mais cuidado comigo, beibe. Sabe com quem está falando? Eu sofro de complexo de inferioridade!

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Se não entender uma obra, chame o artista de “gênio”. É mais fácil. Você não passa vexame e o autor sempre acredita.

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Se tem uma passagem bíblica com que não posso concordar é aquela que afirma estarem salvos os pobres de espírito. Não caberia tanta gente no Céu.
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Dize com quem andas e te direi: “Grande coisa!”

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O mundo é habitado por três tipos de pessoas: as que fazem amizades ou inimizades por razões ideológicas, as que assumem ideologias em função de amizades ou inimizades e as adultas.

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A exemplo do papa, só aceito o aborto se for espontâneo. Ninguém deve forçar a mãe a ir à clínica sem que ela queira.
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26 novembro, 2007

O MITO DA CRIAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DE UM PETISTA


No princípio era a mais-valia e Marx disse:

— Que la assemblée soit!

Porque vinha numa péssima tradução francesa. E ninguém entendeu, já que o lumpemproletariado estava falando muito alto e poucos dominavam o idioma.

E Marx impacientou-se:

— Ach! Hágase la cita, carajo!

E todos correram ao dicionário português-espanhol, mas a consulta demorou um pouco, pois houve alguma discussão sobre se a ordem alfabética deveria ser respeitada ou segui-la seria um passo neoliberal.

Ao que Marx gritou:

— Fiat lux! Fiat lux!

E lhe trouxeram uma caixa de fósforos.

E Marx suspirou e catou dois piolhos da barba para se acalmar. E em seguida, no escuro mesmo, fez uma parede. E separou uma parede da outra e ambas do teto. E, após alguma deliberação, fez o sindicato e achou bom. E foi este o milésimo primeiro dia da criação.

— Agorra, o luiz, porrr favorrr.

E lhe trouxeram o Lula. E Lula disse:

— Nunca antes na história desse país.

E Marx irritou-se:

— O luiz, apertem o interruptorr porr amorr de... do... Light! Turn the light on! Now! I’m loosing my opium of the people!

E fizeram circular uma ata de presença. E houve assinaturas. E após alguma exposição de argumentos, finalmente se fez uma segunda ata. E houve novas assinaturas. E a Comissão Encarregada de Julgar a Validade das Rubricas procedeu a algum debate, depois do qual iniciou conversações tendo em vista estabelecer regras claras para o exame daquelas. Comprovada a autenticidade das mesmas, fez-se uma ata. E após alguma troca de idéias, fez-se uma segunda ata corroborando a primeira. E os membros da Comissão Imbuída da Tarefa de Validação das Assinaturas da Comissão Encarregada de Julgar a Validade das Rubricas procederam a alguma excogitação. E lavrou-se uma ata. E a Comissão com a Atribuição de Revalidação das Assinaturas da Comissão Encarregada da Validação das Assinaturas da Comissão Encarregada de Julgar a Validade das Rubricas se reuniu. E foi este o bilionésimo segundo dia da criação.

E Marx, para conter a raiva, deu dois cascudos em Engels. E depois, desistindo de vez do homem, criou o marxismo vulgar. E para puni-lo por sua insubmissão, fez a língua presa e acrescentou mais quinhentas páginas a “O Capital”.
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22 novembro, 2007

LUGAR COMUM (TEXTO FEITO SOB MEDIDA PARA SER COPIADO, COLADO E ENVIADO POR E-MAIL COM ASSINATURA DO VERISSIMO)


Astafânio Carlos sempre foi uma figura tão macavenca que, ao nascer, em vez de chorar, ele olhou para o médico e ameaçou:

— Se tocar em mim, recorro ao Estatuto da Criança e do Adolescente, hein?

No colégio, enquanto todos os meninos seguravam a bolinha de gude entre o indicador e o polegar, ele a atirava pressionando o mínimo da mão esquerda sobre o médio da direita, e gritava:

— Curucucu, curucucu!

No futebol, rolava no chão às gargalhadas ao ver seu time perder um gol.

Mais tarde, quando passou no vestibular para o bacharelado em Espinografia Retrativa Infotérmica, os colegas de faculdade sofreram para convencê-lo de que deixariam de sair com ele caso continuasse a tomar cerveja na palma das mãos e, principalmente, a comer o tira-gosto lançando a língua diretamente no prato.

— Posso usar os cotovelos? — apelou.

Ao contrário dos outros, Astafânio Carlos aprendeu a tocar violão. Quando pediam Legião Urbana, atacava de Villa-Lobos, tendo sido expulso mais de uma vez pelo próprio dono do bar ao executar uma modinha que ficou popularmente conhecida na universidade como “Garçom, a Conta”.

Nas rodas de literatura, jamais elogiou os russos, nunca disse que Borges era um gênio. Não compunha poesia alternativa, seus olhos não brilhavam quando falava de Kafka. Em matéria de mulher, preferia as feias. No que tange à política, acreditava que a melhor forma de governo era a ditadura democrática de centro.

Aos vinte e cinco anos de idade, Astafânio Carlos tinha um emprego de controlador de freqüência espermatogênica em eqüinos malhados e nenhum amigo. Nunca afirmava nada sem que os estranhos ao redor discordassem veementemente ou fizessem a pior cara de Jefferson Péres.

Àquela época Astafânio Carlos que, diferentemente de todo o mundo, nunca lera “Vou-me embora pra Pasárgada”, começou a elaborar sua única obra, aquilo com que conseguiu, segundo vejo, justificar sua existência: uma antiutopia intitulada “Lugar Comum”.

No conto, Astafânio Carlos trata de uma sociedade no futuro onde as pessoas estariam separadas por um abismo eterno, pois só possuíam um dos hemisférios cerebrais (excetuando-se as louras, que tinham os dois).

Em Lugar Comum, por exemplo, a opinião do grupo A era a de que Hugo Chávez representava, como ditador, grande ameaça à democracia. O grupo B discordava, afirmando ser Chávez um iluminado, verdadeiro redentor da Terra. (O grupo C era composto pelas louras, mas nunca se soube sua opinião, porque elas na hora da pesquisa estavam no motel.)

As divergências continuavam: o grupo A dizia do grupo B que se compunha inteiramente de burrões irremediáveis. O grupo B, por sua vez, opinava que os componentes do grupo A não passavam de exploradores vendidos ao sistema (não fica claro, na narrativa, se o autor se referia ao Windows ou ao Linux).

Ideologia, para o grupo A, era uma doença exclusiva do grupo B e substituía o raciocínio. Já para o grupo B, a ausência de ideologia significava, pelo contrário, incapacidade de enxergar a realidade.

Essas e outras incoerências estavam em “Lugar Comum”, opúsculo de lauda e meia que não fez o menor sucesso entre crítica e público, mas que na minha opinião tem lá os seus méritos, ainda que peque pela inverossimilhança.

Seja como for, encerro dizendo que Astafânio Carlos colocou o ponto final no conto no dia mesmo de sua morte, aos 32 anos, quando tentava, usando apenas uma touca creme e por pura diversão, subir as Cataratas do Iguaçu.
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Astafânio Carlos nunca foi bom no nado de costas.
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21 novembro, 2007

GERUNDISMO


— Boas tardes. Com quem poderia ter o prazer de estar a falar neste aprazível lar? E já me adianto a pedir perdão pela péssima e involuntária rima. Encontrar-se-á o dono da residência nela, hodiernamente?
— Quê?
— Pergunto se Vossa Senhoria acaso não saberia dizer-me se há alguém na habitação?
— Que habitação?
— Esta em que vos encontrais. Seria Vossa Senhoria o proprietário dela ou pertence a outrem tal prerrogativa?
— Depende. A senhora é da Receita?
— Não, porém, se me permite um rasteiro jeu de mot, como dizem os franceses, ou pun, caso Vossa Senhoria seja anglófila: possuo a receita para vosso sucesso. Isto, posto ser Vossa Senhoria o pater familias. Estou certa? É a Vossa Senhoria que procuro?
— Não, eu não sou o Rui Barbosa. A senhora pode me dizer do que se trata, hein?
— Dir-lhe-ei, caso me informe ser Vossa Senhoria possuidora do predicado correto.
— Olha, digo a Vossa Portuguescência que faz vinte anos que deixei o colégio, de maneira que não sei se o predicado tá correto. Ainda mais que Vossa Gramaticância colocou a frase na ordem inversa. Nunca fui bom de passiva, modéstia à parte. Sem falar que a oração é coordenada.
— Subordinada adverbial condicional, se me permite. Mas Vossa Senhoria não precisa exaltar-se. Agradar-me-ia saber tão-somente se habita esta casa.
— Aha! “Esta” se refere à mais próxima, logo a senhora está falando da sua casa. Se eu responder “sim”, a senhora dirá que estou errado, porque não moro na sua casa e sim na minha. O certo então seria que usasse “essa”. Então respondo: “não”. Uhu! Botei pra lascar. Gramática é comigo, minha filha. De quanto é o prêmio?
— Infiro do que diz ser Vossa Senhoria cabeça da família. Informo-lhe, portanto: o prêmio são uma casa ou dois carros. Vossa Senhoria escolhe.
— Peraê. Essa eu vou ter que pensar. O prêmio “são” uma casa ou dois carros... Onde tá a casca de banana? No “ou”. Se o “ou” tem sentido de “e”... Mas não, o “ou” aí conota alternativa. “O prêmio é uma casa” seria o correto. Acertei?
— Creio ter Vossa Senhoria acertado. Estivesse em vosso lugar e minha escolha seria a mesma: uma casa, um lar antes de tudo. Depois haveríamos de dar conta do como nos transportar. Não é vero?
— Não, é Luiz, a seu dispor.
— Pois muito bem, senhor Luiz, para encurtarmos esta pálrea...
— Epa, minha pálrea, não! Se o preço pra ter a casa é esse, eu...
— Não, senhor Luiz, perdoe-me. Falo pálrea não no sentido de logomaquia ou bocagem, mas exclusivamente no de... como posso dizer-lho?
— Sei lá. Bocage, eu até conheço, um ou dois versos. Agora, desse tal de Logomaquia nunca ouvi falar. É espanhol?
— Cavaco.
— Cavaco? Como assim? Nasceu na Caváquia?
— Não, senhor Luiz, digo para encurtarmos o cavaco, a conversação... Enfim, para encurtá-la, digo que o senhor terá o prêmio de uma casa, ao final de breves cinco anos aplicando na Poupança Setentrional-Sul do Banco Austral do Norte, o único que sabe sempre onde você está.
— Aaaahhh... Agora entendi. A senhora é operadora de telemarketing!
— Prefiro “televendedora”. Conserva a origem greco-romana e...
— Pra cima de mim? Operadora de telemarketing? Ha! Cadê o gerúndio? E o “do qual” fora de lugar? E os erros de concordância? Conta outra, minha querida!
— Na verdade, senhor Luiz, temos passado por um longo processo cognitivo e...
— Desculpe, minha filha. Não caio nessa. Isso pra mim é golpe. Você quer meus dados bancários. Se ao menos cometesse um gerundismo! Não, não. Passar bem. (desliga)
(para si) Epf... Os pessoal tá ficando cada vez mais esperto hoje em dia. Do qual, de agora em diante, vou ter de tá adotando outro plano.

20 novembro, 2007

QUEM MANDOU O MEU QUEIJO?


Senhores, este blog, apesar de não ser um deputado, é republicano e tem a consciência negra, de modo que só estaremos voltando às atividades amanhã, 21/11.
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Dia que a partir de 2008 também será considerado feriado, ao menos municipal, posto que o ingresiástico Franciel Carlos Magalhães estará nesta serrista cidade.

Por hoje, leiam a excelente crônica de um queijo anunciado, em que meu amigo Galvão narra suas peripécias para enviar-me um coalho desde a progressista Valença, BA.

E agora vou-me embora pois, como já dizia aquela tradução francesa do Novo Testamento, nem só de queijo vive o homem. Preciso alimentar minha má-consciência.
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Até amanhã.

13 novembro, 2007

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (6)


O crítico literário é o único bípede autotrófico de óculos de que se tem notícia: alimenta-se do próprio ego. Seu habitat artificial são as mesas de discussão, as noites de autógrafo e outros ambientes inóspitos. Tem o corpo dividido em língua, tronco e membros.

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Que nós temos ínfima importância nos planos divinos e possuímos a única missão de reproduzir, eu sei. O que me deixa indignado é que Deus faz tão pouco caso da nossa espécie que nem ao menos se digna a explicar por quê.

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O único mérito da sociologia, a meu ver, foi ter impulsionado o comércio de boinas.

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O diabo não é páreo para Deus. Trata-se de uma criatura ainda muito humanizada. Em termos de mal absoluto, aposto mais nos vilões de telenovela.

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Deus está em tudo, é verdade. Mas confesso que gosto mais d’Ele quando vem em cápsulas de 20 mg de fluoxetina.

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Não é que Deus não exista. Você é que jejuou pouco.

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Sou agnóstico, com alguma — pouca — propensão à crença. Isso, se a televisão estiver desligada.

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Não tenho aptidão ou habilidade para coisa alguma. Qualquer dia, em nome da sobrevivência, serei forçado a abraçar a carreira de artista plástico.

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O mínimo que se espera numa relação é reciprocidade. Eu até acreditava em Deus. Mas que posso fazer se ele é ateu com relação a mim?

12 novembro, 2007

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (5)


Concordamos inteiramente com a tendência da crítica especializada a achar que o humor, em literatura, é algo menor. Eu, Plauto, Shakespeare e Cervantes.

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A maior prova de que Orfeu não existe sou eu cantando.

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O Brasil já teve o ciclo da cana, do café, do ouro e da borracha. O único que permanece é o ciclo vicioso.

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Apesar de pródiga em inventar tragédias e crueldades, nem mesmo a mitologia greco-romana chegou a projetar o cúmulo da tortura e o abismo do tédio que são passar uma hora numa fila de banco apinhada de gente, no verão, sem ar-condicionado, escutando Jorge Vercilo.

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Para ser arrogante, o sujeito ao menos precisa ser inteligente. Não existe nada esteticamente mais deplorável do que um burro esnobe. À exceção, talvez, de um burro sem dentes.

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Faça uma boa ação. Ensine um crítico literário a ler.

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Para agradar a amigos que reclamam da minha neofobia literária, resolvi comprar os últimos romances publicados. E confesso que gostei. Aliás, não foi surpresa. Sempre fui fã da literatura do século XIX.

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Quantos quilos de Will Self, Brad Buchanan, Don DeLillo, Pat Barker, Tim O’Brian, Kazuo Ishiguro, Philip Roth e congêneres valem um hexâmetro de Ovídio?

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Sou a favor do aborto, mas com restrições. Para mim, o procedimento só deveria ser permitido nos casos de fetos maiores de vinte anos que escutam heavy metal.

09 novembro, 2007

MARCONÍADA (ÚLTIMO CANTO)


Em São Paulo, saber se o céu existe não é uma questão metafísica, mas puramente astronômica. De um lado, somos beneficiados pelo fato de uma agência estadual regular rigidamente a qualidade do ar, evitando que entre muito oxigênio em sua composição. De outro, contamos com um fator econômico ancilar: o oxigênio paulista é tão pobre que não consegue passar no pedágio da Dutra.

Essa combinação venturosa tem como principal conseqüência, segundo comprovei, o despertar de uma irrefreável nostalgia. No meu caso, a nostalgia de uma asma esquecida na adolescência e que voltou fulminante para ter sobre mim um efeito singular — singularíssimo: de pulmões, passei a ter pulmão.

Foi, portanto, com esse potencial de lhama subindo os Andes carregada de mantimentos que saí do supermercado. Já ao final do primeiro quarteirão, tal era meu aperto que, sem estorvo, conseguiria coçar a sobrancelha com a língua. Meu elegante caminhar me credenciaria a ser adotado pelo arquidiácono de Notre-Dame.

Alcançada a segunda esquina, o placar era de seis a zero para a lei da gravidade e a força de atrito nem tinha entrado em campo ainda. Improperei Newton e o Parlamento inglês que aprovou medida tão arbitrária, sem a qual os objetos ainda hoje estariam todos flutuando por aí. E só não soltei um palavrão porque, exposta ao frio, minha língua estava tomada pela cãibra.

Porém, homem usado a esportes radicais — entre eles, beber leite diariamente no Brasil —, avancei, intrépido. Dado meu empenho, tudo levava a crer que ao fim me caberia o sucesso obtido, no mar, por Ulysses. Não o herói épico, mas o Guimarães.

Ao chegar a minha rua, trajava roxo, a cor da estação. Sem fôlego, tive um insight digno de Eratóstenes: descobri que a Terra não é plana e gira. Aliás, modestamente, devo dizer que também no que diz respeito à visão, a minha possuía a mesma profundidade da do sábio. Isso, a se confiar nas fontes que dizem ter ele terminado a vida cego.

Quando finalmente cheguei em frente ao meu prédio e com a ajuda do porteiro entrei no átrio e no elevador, perseverante, só via uma coisa na minha frente: o chão.
.
Uma vez no meu andar, joguei os sacos pelo corredor (menos o imanente, que não sabia onde estava), abri a porta com os caninos e engatinhei até o sofá, onde me quedei, trêmulo como o falecido João Paulo II, mas dominando menos idiomas.

Duas horas depois, foi ali que minha mulher me encontrou, ainda sem conseguir coordenar os movimentos, no entanto já conseguindo respirar sem emular o Francisco Cuoco.

— Ai, meu Deus! Que foi, que foi? Fala! Falta de ar? — perguntou ela, alarmada.
— Não — respondi assim que pude, na manhã seguinte. — De clorofila.

Contudo, como a prolongada ausência de oxigênio me deixou um pouco esverdeado, dormirei toda a semana de luz acesa. Mantenho esperanças de, até as próximas compras, lograr fazer fotossíntese.

08 novembro, 2007

MARCONÍADA (2)


Segundo Sun Tzu, fazer supermercado é uma atividade de caráter bélico que pode ser dividida em cinco etapas: recolher as mercadorias, levá-las à caixa mais vazia, ultrapassar a velhinha que segue a passos lentos com o mesmo objetivo, pagar e, por fim, trazer os artigos adquiridos para casa.

Das cinco, a primeira e a segunda causam dor moral. A terceira é perigosa, pois sempre há a possibilidade de a velhinha saber caratê. E a quarta provoca dor física. A única de que me desincumbo com facilidade e sem reclamar é a última. Afinal, moramos a três quadras da loja e há entregadores para fazer o serviço. Não que fique de mãos abanando. Vocês precisam ver a habilidade com que forneço o endereço de casa.

Acontece que, talvez porque só estejamos realizando compras no mesmo lugar há escassos dois anos, não sabia que o serviço de entrega se encerra às oito horas da noite. Detalhe só observado por mim às oito e vinte, após pagar todas as compras — cuja quantidade, com alguma economia, daria para alimentar durante um mês o Diabo da Tasmânia.

Olhei para os sacos plásticos, eles olharam para mim. A princípio, assobiando e fingindo não me ver. Depois, rindo desabridamente. O repolho, diga-se em sua honra, foi o único que apresentou algo semelhante a compadecimento. Ele e os aspargos.

Já eu estampava no rosto a felicidade do último ato da Traviata. Arranquei alguns fios de cabelo do sovaco e xinguei por ordem alfabética e com sobrenomes em caixa-alta toda a árvore genealógica da família Diniz.

Mais que isso, lamentei profundamente o fato de não ter no bolso o “Dicionário Brasileiro de Insultos” de Altair Aranha, que roubei há pouco da Paula
. Mas lembro de ter usado “mancípio” e “punga” para me referir a um ou dois funcionários.

Transcorridos alguns minutos, disse de mim para comigo ser homem o suficiente para encarar o problema sem rodeios. Concordei com meu interlocutor, fazendo algumas ressalvas. E recobrei o ânimo, convencido de que precisava agir como um adulto.

Comecei então a arrastar a perna, retorcer o braço, mancar e babar, alternadamente, forjando uma deficiência física para que alguém se predispusesse a me ajudar a carregar as compras.

O plano de despertar compaixão era bom. Pena que estou em São Paulo, onde não há nada mais dessueto que o PSDB perder uma eleição ou alguém se emocionar. Em 1978, segundo dizem, um aposentado do Brás chegou a derramar uma lágrima de alegria, mas foi multado pela prefeitura, sob violentas imprecações dos vizinhos.

Assim, resignado, restou-me arrepanhar os sacos todos — inclusive o meu que, devido ao peso, recolheu-se um pouco — e pôr-me em marcha para casa, com o equilíbrio de um discurso do presidente e a capacidade respiratória do Volpone.

(TERMINA AMANHÃ)

07 novembro, 2007

MARCONÍADA (1)


Fazer supermercado é, para mim, um gênero incontroverso e ainda não catalogado de tortura. Com a diferença de que a gente não sente cosquinhas. Em compensação, precisa pagar na saída.

Excetuando-se a ida a uma palestra do Gilberto Kassab, ignoro o que mais pode haver de tão calino e humilhante quanto passar uma hora empurrando um carrinho e enfiando produtos dentro dele.

No entanto, como espécime dos mais involuídos da cadeia alimentar, o ser humano necessita de enorme variedade de comidas para sobreviver. Tivéssemos atingido o estágio das plantas e no máximo procuraríamos um supermercado em dias de pouco sol. Ainda assim, só utilizaríamos as prateleiras das lâmpadas.

Uma alternativa seria os produtos virem caminhando ou rolando sozinhos até nossas residências. Dessa maneira, teríamos apenas o trabalho de deixar a porta aberta e, eventualmente, prestar auxílio a uma lata de extrato de tomate mais desastrada que não conseguisse escalar o armário.

Mas, apesar de não falarem — um evidente sinal de superioridade —, aparentemente as mercadorias são mais atrasadas que o ser humano (há certa disputa nos meios científicos sobre se ministros do atual governo entram na classificação). O que aprenderam até agora em matéria de cinética foi cair das gôndolas, causando maior prejuízo ao cliente.

Segue que, não havendo outra opção, semanalmente sou obrigado a “fazer Bompreço”, como se diz lá no Recife. No caso, “fazer Pão de Açúcar”, pois inexiste em São Paulo aquele estabelecimento e, sendo um homem altruísta, gosto de ajudar o Abílio Diniz a ganhar um pouco de dinheiro.

Para tanto, conto com a inestimável ajuda de minha cônjuge. Afinal, senão a primeira — não menosprezemos o coçar as costas um do outro —, uma das bases eviternas do casamento saudável é, sem dúvida, ter alguém para fazer feira conosco.

Nos dias em que meu bem está de TPM, então, sua prestança duplica. Vendo a bravura com que recolhe as provisões, posso atestar: estivesse ela ao lado de El Cid, os mouros não apenas teriam sido expulsos da península ibérica, mas perdido também o Oriente Médio, todo o norte da África e mais dois territórios a sua escolha.

Porém, ultimamente minha amada tem se dedicado a tarefa quase tão árdua quanto aumentar o lucro de varejistas: estuda para concurso público. E como, a não ser ela a nos sustentar com seu salário de estatutária, a probabilidade de vermos dinheiro nos próximos seis meses é tanta quanto a do América de Natal fugir do rebaixamento, ontem peguei a listinha e me dirigi sozinho às compras.
.
(CONTINUA AMANHÃ)

06 novembro, 2007

PORQUE NEM SEMPRE SE ACORDA DE BOM HUMOR


— Bom dia, senhor. Tudo bem? Aqui é a Nadja, da ***. Com quem eu vou estar falando, por favor?
— Olha, Nadja, com quem você vai falar por favor, eu não sei. Agora, que você deveria, por obrigação, estar falando com Celso Cunha, Rocha Lima ou qualquer outra gramática do tipo, não resta a menor dúvida.
— Desculpe, senhor, não entendi. O senhor poderia estar repetindo?
— Eu, não, que já passei pelo segundo grau. Agora você, Nadja, pelo visto, deveria repetir pelo menos umas cinco vezes a quarta série do ensino fundamental.
— Como, senhor?
— Se quiser comer, tanto melhor. Grama, gramática, o radical é praticamente o mesmo, de maneira que você não mudará muito sua dieta.
— Desculpe, senhor, com quem eu vou estar falando mesmo?
— Celso Cunha, Rocha Lima ou quem sabe o Bechara. Ainda que, no seu caso, talvez a questão seja mais de raciocínio lógico. Daí por que talvez fosse melhor começar com aulas de silogismo. Em casos extremos, a transfusão cerebral tem se mostrado uma boa alternativa.
— Bom dia, senhor Silogismo, meu nome é Nadja e eu represento a ***. O motivo da minha ligação é que a *** vai estar promovendo uma promoção...
— De gerúndios, eu imagino?
— Não, senhor, na verdade vai estar sendo de assentos de acrílico para privada. Na assinatura de um ano da revista ***, o senhor vai estar ganhando um assento de acrílico inteiramente gratuíto. O senhor estaria interessado em estar participando de nossa promoção?
— Infelizmente não, Nadja.
— E eu poderia estar sabendo o porquê, senhor?
— Olha, o caso é que eu gosto de fazer meu cocô confortavelmente, sentado no vaso. E pelo que depreendo do que você diz, vou acabar caindo no chão. Vocês empregam os acentos fora de lugar, Nadja.
— O senhor já teve a oportunidade de estar experimentando um dos nossos assentos, senhor? De qual tipo, exatamente?
— Do que dói nos ouvidos quando a gente escuta, Nadja.
— Desculpe, senhor, mas o senhor deve estar enganado, a colocação do assento vai estar sendo rápida e prática, do qual o cliente vai estar tendo plena satisfação.
— Bom, quanto ao Duqual, não sei, Nadja, faz tempo que não converso com ele, anda meio sumido, só aparece fora de hora ultimamente. Geralmente querendo me vender alguma coisa. Quanto a mim, não estou interessado.
— Então o senhor não vai querer estar adquirindo a promoção, sr. Silogésio?
— Não, Nadja, obrigado.
— E eu poderia estar sabendo o porquê?
— Depende. Você tá usando “por que” junto ou separado?
— O quê?
— “O quê” com ou sem circunflexo?
— Ahn... Err... Obrigado pela sua atenção, senhor. O senhor não teria um conhecido que poderia estar me indicando para a promoção?
— O Aurélio.
— O senhor teria o telefone dele, senhor?
— Ah, desde o começo suspeitei que você não o conhecesse. Que pena. A que ponto chegam algumas relações familiares!
— Não tô entendendo, senhor.
— Você e o Aurélio, seu próprio pai, sem se falarem. Isso é um absurdo. Tá aqui o número, ó: **78.3454.
— Obrigado, senhor. A *** agradece e vai estar lhe desejando um bom-dia. Mais alguma coisa?
— Sim. Se o Aurélio não estiver, aproveite para falar com o Houaiss, ele também pode ser de grande valia.
— Moram juntos, senhor?
— Não sei se juntos. O Houaiss tinha mania de comer pratos exóticos, de maneira que talvez esteja no inferno.
— Zona Leste?
— Não, não. O inferno é ruim, mas não chega a ser a Zona Leste. É mais pavimentado.
— Não, senhor, eu tô perguntando se o prefixo é da Zona Leste.
— Ah, sim. Mas você vai encontrá-los mesmo é no centro.
— Perto da Luz?
— O Aurélio, pelo menos, acho que sim. Foi um grande homem. Em todo o caso, ligando pro centro, peça pra falar com a mãe-de-santo de plantão. É uma bela profissional. Vai chamar os dois pra você.
— Obrigado, senhor. A *** agradece e vai estar lhe desejando um bom-dia.
— Um bom-dia pra você também, Nadja. E que Rui Barbosa a acompanhe.
— Amém, senhor.

05 novembro, 2007

UM JULGAMENTO LENDÁRIO


PROMOTOR: Matou o pai e manteve intercurso sexual com a mãe, excelência.

ADVOGADO: Protesto. Meu cliente é um personagem mitológico, excelência. O caso dele deve ser levado às Erínias e não a um tribunal comum.

PROMOTOR: Personagem mitológico o Maluf também é, meu filho, e nem por isso...

CORO: Ó Édipo, qual será teu futuro? Ó Édipo, homem assinalado pelos deuses! Ó Édipo, que será de ti?

JUIZ: Peço que a acusação observe o linguajar no tribunal. Nada de palavrões.

PROMOTOR: Perdão, excelência. Prossigamos. O réu, para cúmulo da afronta, teve um filho com a própria mãe. Se vira moda, como é que a gente vai conseguir distinguir e nomear nossos parentes de agora em diante? Um filho que ao mesmo tempo é neto! Tem gente que já faz confusão com genro e nora, excelência!

CORO: Ó Édipo, que destino cruel! Ó Édipo, que deus zangado levou-te a fornicar com a própria mãe?

ADVOGADO: Lembro, excelência, dos grandes serviços prestados à cidade pelo meu cliente quando esta se encontrava aterrorizada pela Esfinge.

PROMOTOR: Cá pra nós, excelência, a Esfinge, com aqueles segredos ridículos dela? Ora, todo mundo sabe o que é que pela manhã tem quatro pés, à tarde dois e à noite três.

JUIZ: Eu, não. E olha que adoro adivinhas.

ADVOGADO: É o homem, excelência.

JUIZ: Ahn...

ADVOGADO: Queria ver era o Édipo dizer o que é que cai em pé e corre deitado, isso sim. Além do mais, a Esfinge era mulher. Não conseguiria segurar o segredo por muito tempo.

CORO: Ó Édipo, o fado não leva ao menos teus trabalhos em conta! As Moiras já abrem as tenazes para cortar o fio da tua vida, ó Édipo!

JUIZ: Seja mais claro. O que você quer dizer com isso?

PROMOTOR: Quero dizer que as mulheres...

JUIZ: Danem-se as mulheres. Agora você me deixou curioso. Quero saber é o que é que cai em pé e corre deitado.

ADVOGADO: Meu cliente pede para comunicar ao tribunal que é a chuva, excelência.

JUIZ: A chuva! Isso mesmo. Esse menino é bom.

PROMOTOR: Tudo bem, excelência. Quero ver agora ele adivinhar o que é que tem escama e não é peixe, coroa e não é rei.

CORO: Ó Édipo, põem-te à prova como um reles criminoso! Ó Édipo, querem...

JUIZ: Silêncio no tribunal! Por favor, alguém pode tirar o coro dali? Meu Zeus do céu, ninguém agüenta mais essa ladainha!

CORO: Ó nobre mantenedor das leis, então é assim que reages? Ó homem ímpio, calar-te-ás a respeito do incesto que cometes com a tua própria irm...

JUIZ: Pssss! Levem o coro para fora, agora!

CORO: Nada falarás sobre teu caso extraconj...

JUIZ: Fora! Ótimo. Podem prosseguir.

ADVOGADO: Meu cliente diz que a pergunta é capciosa. Os gregos ainda não conhecem a fruta em questão, excelência, pois que é originária de regiões para além do Oceano, desconhecidas dos povos antigos. No entanto, afirma que a resposta é: abacaxi.

JUIZ: Uh, uh! Muito bom. O garoto é um gênio.

PROMOTOR: Tem muitos dentes e não consegue morder?

ADVOGADO: Meu cliente diz que é o alho, excelência.

JUIZ: Muito bem!

PROMOTOR: Quanto mais se perde, mais se tem?

ADVOGADO: Sono.

PROMOTOR: Quanto mais se tira, maior fica.

ADVOGADO: Buraco.

JUIZ: Grande! Olha, sr. Édipo, estou inclinado a aliviar sua pena. Uma inteligência como a sua... O senhor não é um beócio qualquer!

PROMOTOR: Calma, excelência. Por favor, só mais uma. Uma só, excelência! O que é que se parte e se reparte e fica sempre do mesmo tamanho?

ADVOGADO: Uhm... Meu cliente diz que é amor de esposa, excelência.

PROMOTOR: Ha, ha, ha. Errou, excelência! É amor de mãe!

JUIZ: Ah!... Que pena, sr. Édipo! Nesse caso, infelizmente, terei que condená-lo ao desterro. Guardas! Levem-no. Até lá, aviso: não tiraremos os olhos do senhor.

01 novembro, 2007

O MITO DA CRIAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DE UM JOGADOR DE FUTEBOL


No princípio era a bola e Deus disse:

— Faça-se o gol!

Mas não tinha ninguém para chutar. E Deus pegou um punhado de grama, passou saliva para dar a liga e depois soprou. E Deus criou o primeiro jogador de futebol: Cláudio Adão. E Deus achou bom. E foi esse o primeiro tempo da criação.

Em seguida, separou Deus a pequena da grande área e ambas da intermediária, e passou cal nas laterais do campo elísio. E foram esses os acréscimos do primeiro tempo da criação.

E depois fez Deus as traves, o círculo central, a arquibancada, os anjos para pôr na arquibancada para torcer pelo seu time e o ingresso a R$ 30. E Deus achou bom, porque tinha carteira de estudante e pagava meia. E foi esse o intervalo do primeiro para o segundo tempo da criação.

Mas como Deus achasse que o jogador de futebol estava muito só e não teria com quem gastar seus dólares ou a quem dar carona em seu carro importado, do cérebro do jogador de futebol, fez a maria-chuteira. E Deus achou boa. E foi esse o segundo tempo da criação.

Então Deus perguntou ao jogador:

— Preparado?

E o jogador ficou mudo, pois o verbo não habitava nele. Então, Deus, em sua infinita bondade, criou as expressões “caixinha de surpresa”, “a gente vamos”, “o professor”, “respeitar o adversário”, “vai ser um jogo difíce” e mais umas duas ou três. E foram esses os acréscimos do segundo tempo da criação.

Então Deus soprou do seu apito. E o jogador de futebol correu e, com classe, chutou a bola no ângulo. Mas o diabo foi lá e defendeu. E Deus, em sua equanimidade, mandou voltar o lance. Mas o diabo contestou:

— Roubo não, hein? Eu nem me mexi!

E Deus, em sua infinita bondade, deu um cartão amarelo para o diabo. E o diabo insistiu:

— Que marmelada! Só porque é o dono da bola!

E Deus reagiu e, com um cartão vermelho, mandou o diabo para o fogo eterno mais cedo. E o primeiro jogador chutou e marcou. E Deus comemorou:

— Goool! Rá-rá, ru-ru, o Paraíso é nosso! Rá-rá, ru-ru, o Paraíso é nosso!

E, na comemoração, o primeiro jogador tirou a folha de parreira que cobria as suas vergonhas, rodou-a sobre a cabeça e jogou para a maria-chuteira que estava na arquibancada.

E Deus não achou nada bom. E deu um vermelho para ele. E foi assim que, punido por conta da mulher e da cobra, o primeiro jogador foi expulso do campo elísio e teve que treinar de sol a sol para conseguir fazer gols com o suor do próprio rosto em um time da Segunda Divisão.
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OUTROS MITOS DA CRIAÇÃO
Sob a Perspectiva de um Deputado Federal
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(ANTES DE COPIAR E COLAR ESTE TEXTO ONDE QUER QUE SEJA SEM PEDIR AUTORIZAÇÃO OU DAR A AUTORIA, PARE, PENSE DUAS VEZES, PULE UMA CASA, PENSE MAIS TRÊS VEZES, REBOBINE A FITA E PENSE DE NOVO. OS TEXTOS DESTE BLOG ESTÃO DEVIDAMENTE REGISTRADOS NA BIBLIOTECA NACIONAL. PARECE INCRÍVEL E TALVEZ JÁ HAJA NO BRASIL UM MOVIMENTO CONTRA ESSA ARBITRARIEDADE, MAS POR ENQUANTO PLÁGIO AINDA É CRIME PREVISTO NO CÓDIGO PENAL. É VERDADE QUE ESTRANHOS FENÔMENOS DE CRÔNICAS APARECENDO PRONTAS EM COMPUTADORES NOS MAIS DIFERENTES RECANTOS DO PAÍS VÊM SENDO RELATADOS. MAS, AVISO AOS CRENTES: CUIDADO, ESTE BLOG É ATEU. EM MATÉRIA DE RELIGIÃO, SÓ ACREDITA MESMO EM ADVOGADOS, JUÍZES, NA POLÍCIA E NO SISTEMA PENITENCIÁRIO.)

31 outubro, 2007

DEPRESSÃO


Acordei anteontem com uma depressão que atingiu sete pontos na escala Raskolnikov. Uma empilhadeira de médio porte não conseguiria me tirar da cama. E não, evidentemente, pelo excesso de peso. Quanto a isso, um macaco hidráulico resolveria o problema.

Nessas ocasiões, costumo ficar tão comunicativo quanto um peixe. Com a diferença de que não abro a boca e, deprimido, tampouco consigo tomar banho. Uma montanha seria capaz de se movimentar mais do que eu no auge da crise — e isso, mesmo sem o auxílio de Maomé. O Gianecchini seria mais expressivo, o ex-ministro Waldir Pires teria um poder de reação maior do que o meu.

Especialmente anteontem, o surto depressivo fez-me sentir como a máquina estatal: totalmente paralisado. Tinha a sensação de que estava dentro de um filme Sueco. Cogitei mesmo da possibilidade de ser pura criação de um escritor eslavo.

A coisa chegou a tal ponto que, num esforço extremo, resolvi me olhar no espelho para conferir se acaso não me transformara num blatídeo. Em seguida, imaginando algo ainda pior, verifiquei se meus cabelos continuavam na testa, de maneira a constatar não haver me metamorfoseado em Paulo Polzonoff.

Mas não. Quanto ao aspecto exterior, era visível apenas um certo olhar apertado. Deitado, mirava a distância. O que me fez suspeitar ter, na realidade, virado Dorival Caymmi — em razão disso, até principiei a composição de um pedaço de uma sílaba de uma palavra que iniciaria um futuro começo de verso.

Em suma, trancado no quarto, com a disposição para viver da hiena Hardy e me alimentando como um sudanês, fatalmente passaria desta para, senão pior, ao menos mais brega: uma série de mensagens póstumas seriam escritas na minha página de recados do Orkut.

No entanto se, como diz o vulgo, por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher, aparentemente por trás dos pequenos e gordos também. Prendado com mais de um dos dons de Asclépio, nem só de polichineloterapia vive o meu bem. Criatura sensível e maternal, além de extremamente criativa, descobri que também para a depressão desenvolveu ela um método terapêutico bastante eficaz, o qual, em atual processo de patenteamento, dentro em breve será a salvação de deprimidos de todo o mundo.

Ao me ver jogado na cama, freudianamente recolhido sobre o próprio corpo e repetindo mentalmente a frase “eu não passo de um Morrissey, eu não passo de um Morrissey”, em vez de usar do procedimento dos ignorantes e supersticiosos, administrando-me carinho, atenção e outras mezinhas da inculta medicina popular, de péssimas conseqüências para a saúde do doente, entrou ela a fazer uma grande faxina na casa.

— Você vai se sentir melhor — afirmou, colocando o avental.

De fato. Escorraçando-me de um cômodo a outro, juntamente com móveis, gatos e tapetes, eventualmente passando a vassoura sobre minha cabeça ou batendo com o pano de chão no meu olho sem querer, produziu-me minha querida e adorada, ao longo de todo o dia, um estado de bem-estar com que os teóricos do welfare state jamais sonharam.

Não cheguei a perguntar, mas ao que tudo indica, a terapia foi baseada no atendimento do Souza Aguiar, no Rio de Janeiro, ou de algum outro hospital público. E, de tão boa, já despertou o interesse do governo americano, que pensa adaptá-la a Guantánamo.
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Quanto a mim, aprovei-a integralmente. Ao final de algumas horas de faxina, forçado a me deslocar como um hebreu no deserto, puxado para aqui, empurrado para ali, me senti plenamente satisfeito. A depressão persistiu, é verdade. Agora mesmo é com grande custo que me sento aqui para escrever. Em compensação — e digo isso num misto de alívio e orgulho — não restou um único grão de poeira em meu corpo.

30 outubro, 2007

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (4)


Perguntam-me se não leio os autores contemporâneos. Mas é claro que sim. Sobretudo os contemporâneos de Voltaire, Dickens, Horácio e Aristófanes.

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Do ponto de vista da evolução lingüística, o século XXI ficará conhecido como aquele em que, para falar ou escrever sobre "subliteratura", críticos literários passaram a dispensar o prefixo.

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Quem passa horas conversando sobre literatura em mesa de bar são os chatos. Escritores de verdade falam mesmo é de dinheiro e de mulher.

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Outro dia estive com literatos. Falou-se do mais recente livro de um célebre autor de Uganda. Comentou-se a próxima obra a ser lançada por um notório escritor manco tailandês. Discutiu-se se o melhor romance de capa vermelha com bolinhas roxas do ano havia sido aquele lançado na Letônia ou o da Bolívia. Sobre os clássicos, nada ouvi. Perguntei, me disseram não haver pressa. Reservarão os próximos dois mil anos para lê-los.

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Não vejo incoerência alguma em ex-prostitutas virarem escritoras. O que ocorre, na verdade, é uma simples mudança de foco. Elas deixam de fazer com os clientes o que passam a fazer com a gramática.

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Eu podia estar roubando, estuprando, matando ou abrindo uma empresa de plano de saúde, mas estou tentando ganhar a vida honestamente.

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Existem inúmeras atividades mais promissoras que a de venda de livros no Brasil. A de aluguel de aquecedores elétricos em Teresina, por exemplo.

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Sei de alfabetizadores que trocaram a profissão pela de assistente de atirador de facas. Não se pode dizer que estejam satisfeitos. Mas o novo trabalho, quando pouco, é menos insalubre.

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“Preconceito ideológico” é o nome que se dá a uma forma distorcida e parcial de apreensão da realidade e ocorre em função de certos interesses ou inclinações. Desde que estes não sejam os nossos, claro. Se forem, o preconceito ideológico é chamado de “verdade absoluta”.

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Em retribuição aos belos serviços de cura de homossexuais divulgados por certas igrejas, acho que os grupos gays deveriam fazer sessões semelhantes para sarar quem deseja se livrar da condição de evangélico.

26 outubro, 2007

POLICHINELOTERAPIA


Venho de uma terra onde as quatro estações são bem definidas: de dezembro a março, temos o verão; de março a junho, é a vez do verão; de junho a setembro, o verão dá lugar ao verão; e, por fim, de setembro a dezembro, quando o verão vai embora, o verão retorna, reabrindo o ciclo.

Não tenho dúvidas de que os antigos tinham em mente o Recife quando falavam nos Hiperbóreos ou, antes, que o diabo tenha construído o Inferno tomando como base o projeto da cidade maurícia e procedendo a pequenas alterações: substituiu o fedor de esgoto pelo de enxofre, deixou a temperatura um pouco mais agradável, instituiu um mínimo de moralidade, diminuiu os índices de violência.

Em suma, situação atmosférica mais estável que a recifense só se viu antes em Gibeão, quando Josué parou o sol. Com a vantagem de que, até onde sei, a maioria dos pernambucanos ainda conserva os prepúcios.

É certo que Vivaldi não acharia muito estimulante morar em lugar assim e talvez caísse numa crise criativa sem precedentes, largando o violino, tingindo a peruca com água oxigenada e se integrando como bailarino a uma banda de forró eletrônico. Mas a pessoa a tudo se acostuma. E, afinal, existem coisas piores no mundo do que ter de usar absorventes íntimos sob os sovacos para estancar a transpiração. Prova disso é o seriado Antônia.

Há dois anos, porém, mudei-me para São Paulo, lugar onde as estações são tão incertas que até as de metrô de vez em quando afundam. Clima constante por estas bandas, só o de insegurança. Aqui, em termos de previsibilidade, o máximo que se pode dizer é que o PSDB ganhará as próximas vinte e cinco eleições.

Em função disso e porque tenho tanta simpatia por baixas temperaturas quanto Maria I tinha por anglicanos, carregava sempre à mão, para caso de necessidade, casacos, abrigos, jaquetas, gorros, cobertores, meias e uma lente de aumento. Esta última, para matar a nostalgia do pinto em épocas de profunda algidez.

Todo esse trabalho vinha enfrentando por me recusar a aderir ao que, segundo minha mulher, é um antigo método espartano de combate ao frio. Não, não me refiro à pederastia. Tampouco aludo à luta greco-romana, esporte viril cujo objetivo é derrubar o adversário através de violentos golpes de oratória.

A técnica usada por minha mulher e, ao que parece, por grande parte da comunidade sul-rio-grandense para evitar o arrefecimento do corpo é a polichineloterapia. Ao longo dos últimos anos, ao passar pelo sofá e descobrir que a criatura gemedora, tiritante, entanguida debaixo de um monte de panos que ali se encontrava era eu, ela não se cansava de repetir: “Faz polichinelo que passa”.

Não apenas insistia na medicação como, com o tempo, passou a prescrevê-la para os males mais variados. De tal maneira que, a se crer nela, havia descoberto algo melhor que o emplastro Brás Cubas: uma maneira de enfiar todos os males humanos de volta na boceta. (Boceta de Pandora, leitor. Quem fala é Hesíodo, não sou eu. E se não foi Hesíodo, me perdoe. Também Machado trocou Heráclito por Empédocles e nem por isso deixou de figurar no cânone de Harold Bloom.)

Ora, minha mulher conversa com plantas. Com uma mulher que conversa com plantas e, ainda por cima, infla as narinas sem mover um músculo do rosto, não se discute. Porém, homem de princípios atravincados, mantive sempre em mente não haver nada no mundo tão grave que me levasse a praticar algo estranho e nojoso como o exercício físico.

Ontem, contudo, como visse que a temperatura não apenas despencava, mas certamente rolava pela escada abaixo e, batendo a cabeça no último degrau, fraturava umas cinco vértebras, resolvi tomar medida drástica. Testei o remédio e, boquiaberto, descobri que ele funciona.

Sim, em nome da verdade, que atualmente, segundo se diz, encontra-se refém de deputados num edifício escuso de Brasília, afirmo: tão-logo concluí cinqüenta polichinelos, o frio simplesmente desapareceu. Sumiu. O processo é, de fato, milagroso.
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Resta agora saber se na cura de enfermidades a polichineloterapia mantém a mesma eficácia. Pelo que apurei, logo após o experimento de ontem à noite, posso garantir que, ao menos contra asma, arritmia, taquicardia, tremedeira, câimbra, deslocamento de bacia, tontura, dor nas costas e distensão muscular, ela não surte o menor efeito.
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24 outubro, 2007

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (3)


No princípio, a comunidade humana tinha grande necessidade do grupo e dispunha de pouquíssimos vocábulos para se comunicar. Ou seja, era como um grande time de futebol.

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Não estudei o caso a fundo nem sou especialista no assunto, mas suspeito que, se os jornalistas pensassem, talvez os telejornais chegassem até a ser um pouco interessantes.
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Rediscutir as privatizações a esta altura? Acho ótimo. Na minha opinião, mais premente que isso só mesmo um profundo debate sobre a necessidade ou não de se revogar o Tratado de Tordesilhas.
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A mais cruel forma de tortura já registrada no Ocidente foi a que os cineastas brasileiros usaram para acabar com Nélson Rodrigues.
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Dizer que no mundo só há idiotas é injusto, trata-se de um juízo parcial. E os imbecis ou os canalhas, por exemplo? E os débeis mentais?

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Corrupção devia ser crime hediondo. Um sujeito que desviasse verba pública deveria pegar prisão perpétua ou, pior, ser obrigado a assistir a toda a filmografia do Daniel Filho.

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Sempre que assisto a uma peça teatral contemporânea, volto para casa ainda mais entusiasmado com Ésquilo, Sófocles e Eurípides.

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Afirmar que a literatura de José Sarney não presta é fácil para quem se senta numa cadeira e, sem embaraço, usa os dedos. Ora, o grande mérito do maranhense é, justamente, exercer seu ofício com as quatro patas no chão.

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Até bem pouco tempo atrás, compositores brasileiros só imitavam música ruim de branco americano. Graças a Deus, nos últimos anos isso mudou um pouco. Agora já há muita gente imitando música ruim de negro americano também.
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Sou a favor da pena de morte apenas para comentaristas de arbitragem e apresentadores de concurso de miss.

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O principal resultado da nova onda conservadora brasileira é que três lordes ingleses já viraram comunistas.
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Só um idiota acredita no Estado. Sou totalmente a favor da privatização. Radical. Intransigente. Com dinheiro do BNDES.
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Quanto a mim, a esta altura, acredito que só nos resta uma única saída digna: voltar a ser colônia de Portugal.
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23 outubro, 2007

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (2)


Modéstia à parte, as mulheres costumam dizer por aí que, na cama, eu sou um ninja. Deito ali, fico imóvel... praticamente sem batimentos cardíacos... pareço morto.

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Deus deve ter Mal de Parkinson. Do contrário, não escreveria certo por linhas tortas.

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Cada vez que releio o Antigo Testamento chego à mesma conclusão: Javé não tomava Lexotan.

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Deus é apenas o Diabo sem superego.

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Ninguém de bom senso pode acreditar em Deus. Trata-se, comprovadamente, de um sujeito que mente muito.

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Dizer que há preconceito de classe no Brasil é uma estupidez sem tamanho. Isso só pode ser idéia de gente pobre, sem etiqueta nem educação.

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O problema brasileiro é puramente aritmético: muito corrupto, pouca propina.

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Dizer que no Brasil nunca se deu importância à educação... Ora, se até nossos senhores de escravos tinham diploma na Europa. Além disso, que eu saiba, sempre mataram seus negros usando a mão correta na faca.

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A situação chegou a tal ponto que nem mesmo em deputados podemos confiar. Outro dia, topei com um honesto.

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Os dois únicos sistemas que vi funcionarem plenamente até hoje foram o social-democrata escandinavo e o parassimpático.

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No Brasil, a social-democracia é tão avançada que o Estado toma para si até mesmo a responsabilidade de assaltar e matar.
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