19 março, 2008

MUDANÇA DE ENDEREÇO


A negociação foi pesada. Milton Ribeiro ofereceu um tíquete-alimentação. Eu disse que só ia por quatro. Ele coçou a barba e ofereceu dois. Finquei o pé e, utilizando o meu latim com sotaque da península, para mostrar que estava falando sério, disse:

— Na-na-ni-na-naum.

Aborrecido, ele propôs:

— Dois tíquetes e um passe de ônibus.

Redargüi, altivo:

— Sou agnóstico. Não acredito em passe. Três tíquetes e não falemos mais nisso.

— Dois — insistiu ele, avançando para cima de mim e atirando perdigotos como uma metralhadora da Segunda Guerra. Com o quê, nossos pequenos narizes de ascendência árabe se tocaram. Trocamos alguns golpes de esgrima com a parte mais conspícua do aparelho respiratório, inventando um esporte que poderia ter feito muito sucesso em Israel.

Touché! — festejou ele, enfiando num golpe certeiro uma de suas narinas no meu olho.

Mesmo ferido, não me intimidei e, superior, afirmei, não sem algum sarcasmo:

— Ha! Nunca. Três, três tíquetes. Você pensa que eu tô morrendo de fome, Ribas?

Mas nesse momento minha barriga, em motim, roncou, denunciando minha condição de famélico. Milton Ribeiro riu, com o olhar blasé de quem faz três refeições por dia e sugeriu, condescendente:

— Dois tíquetes e eu passo a postar mais nus frontais lá no meu blog.

— Com peitões? — perguntei.

— Com peitões — acedeu ele.

Sabendo-me vencido, aceitei. Ele então me estendeu o contrato e uma almofada de carimbo, para que apusesse meu polegar à guisa de assinatura.

E foi assim que aconteceu. Este blog, a partir de hoje, faz parte de O Pensador Selvagem e deve ser acessado no endereço abaixo:

http://marconileal.opensadorselvagem.org/

Vão lá conferir a casa nova e digam o que acharam. Aos viciados em drogas, peço: assinem o RSS ou adicionem a página aos favoritos.
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Faço esse convite com lágrimas nos olhos. Afinal de contas, a narigada foi potente e continua doendo até agora.

18 março, 2008

MOVIMENTO MARXISTA PELA LIBERTAÇÃO DAS MASSAS (Parte 2)


LÍDER: Sabia, olha aí como você não passa de um pequeno-burguês, fã de filmes de Bergman. Você deve ser daquele tipo de gente tão insensível que come uma lasanha inteira sem se importar com os seus gemidos.

GERENTE: Gemidos? Da lasanha?

LÍDER: Viu? Eu sabia. Não esperava outra coisa vinda de um membro da elite massívara. Você é um vendido ao seu chef. Os chefs exploram as massas, retalhando-as, assando-as e procedendo a toda sorte de crueldades com elas.

MANIFESTANTES: (em coro) Ine, ine, ine, não queremos tagliarini! Ine, ine, ine, não queremos tagliarini!

GERENTE: Chefes! Com “e”, meu filho! Os chefes, os donos do poder! Marx nunca falou de chefs na vida! Aliás, com aquela barriga dele, tenho certeza que ele apreciava uma boa massa.

LÍDER: Meu caro burguês, o próprio hino socialista diz, numa clara menção à necessidade de libertar as massas: “De pé, ó vítimas da fome!” A que você acha que isso se refere, senão ao consumo de macarrões e afins por parte de famintos alienados?

GERENTE: Aos pobres e despossuídos! Será que o senhor não entende? Aos pobres e despossuídos!

LÍDER: É inútil discutir com você. Todos sabem que Marx manteve durante anos, como melhor amigo e colaborador, um macarrão, o cabelo-de-engels.

GERENTE: (aos berros) Não acredito no que eu tô ouvindo! O cara acha que Engels é um tipo de macarrão!

MANIFESTANTES: (em coro) Óli, óli, óli, não comemos ravióli! Óli, óli, óli, não comemos ravióli!

LÍDER: E outra: a indústria suporta essa situação deplorável através da mais-valia, outro conceito marxista. É vale-refeição, vale-alimentação, vale de padaria...

GERENTE: Chega! Não quero ouvir mais essa idiotice! Daqui vocês não passam!

LÍDER: Não adianta reagir. É a marcha da história, meu bom burguês. O próprio Marx prenunciou a mudança de regime através da revolução, ou seja, a implantação de um regime não-calórico, uma nova dieta, sem massas. (ao megafone) Avante, companheiros! Trabalhadores do mundo, libertai-vos do rolo de macarrão!

MANIFESTANTES: (cantando e avançando para dentro do supermercado) “Caminhando e cantando e se abstendo de pão, somos todos iguais, homens ou macarrão!”

GERENTE: Segurança! Segurança!

17 março, 2008

MOVIMENTO MARXISTA PELA LIBERTAÇÃO DAS MASSAS (Parte 1)


(Grande aglomeração diante da porta de um supermercado. Gritos de ordem, cartazes, bandeiras vermelhas. Um sujeito com megafone, de boina, bolsa e sandálias de couro lidera a manifestação. O gerente, irritado, sai para conversar com os manifestantes, que são contidos por seguranças.)

GERENTE: Mas o que é isso, afinal? Quem são vocês? Não vou admitir saques no meu estabelecimento!

LÍDER: Nós somos do MMLM, Movimento Marxista pela Libertação das Massas, e estamos aqui para marcar posição contra a barbárie secular que vem vitimando as massas de todo o mundo desde o advento da primeira Revolução Nutricional, detonada na Inglaterra, em meados do século XVIII.

MANIFESTANTES: (em coro) A massa, unida, jamais será cozida! A massa, unida, jamais será cozida.

GERENTE: Co-como?

LÍDER: Isso mesmo, come. Há séculos o homem vem comendo impunemente pastas e derivados de todos os tipos, submetendo nossos irmãos farináceos às torturas mais cruéis pelo vil prazer de se alimentar. Chega. É hora de darmos um basta nessa situação.

GERENTE: (indignado) Mas, mas... Cidadão! Eu creio que quando Marx falava das massas, ele estava se referindo aos espoliados, ao lumpen, enfim...

LÍDER: Sem dúvida. Espoliados ao lumpen, espoliados al sugo ou mesmo al dente, não interessa. Chegou o momento de eles se libertarem. Marx já dizia: a mercadoria é um fetiche. E como fetiche, ela tem todo o direito de se realizar sexualmente.

MANIFESTANTES: (em coro) Abaixo a panificação! Abaixo a panificação!

GERENTE: Fetich...? Você é louco? Meu amigo, o fetiche a que Marx se refere é decorrente do processo de naturalização. Não tem nada a ver com sexo! Ou você acha que o velho mantinha relações eróticas com polpettones, por acaso?

LÍDER: Você diz isso porque faz parte do sistema — sistema que reprime os meios de comunicação das massas, impedindo que elas se expressem. Pra você, a pasta é apenas uma coisa, um produto sem vida própria. É como se um fettuccini não tivesse alma ou um rondelle não possuísse voz, não pudesse manifestar seus desejos e angústias.

GERENTE: (vermelho de raiva) Um rondelle expressando suas angústias! Isso não acontece nem com o bacalhau, que é um alimento escandinavo, meu senhor!

MANIFESTANTES: (em coro) ¡No asarán! ¡No asarán!

(CONTINUA AMANHÃ)

14 março, 2008

REUNIÃO DE DIRETORIA


— Bom, eu o chamei aqui porque, como se sabe, nós estamos perdendo competitividade, século a século. A concorrência tem arrebatado nossos melhores clientes. Já tivemos até que esvaziar o limbo para poder colocar todas as auréolas e asas que estão empoeirando lá, sem uso. O céu tá com uma densidade populacional menor que a do Amazonas. Isso aqui tá parecendo Brasília na sexta-feira. A continuar assim, vamos acabar incorporados pelo inferno.
— Se me permite, eu acho que o problema é que nosso método administrativo é muito arcaico, Papai. Essa história de empresa familiar não dá certo no mundo moderno. A coisa tem que ser mais profissional. A gente é muito centralizador, a firma obedece a uma hierarquia muito rígida e isso emperra nossas ações. Veja o mundo, por exemplo. Podia ter sido feito em duas horas, foi feito em seis dias e aquele empreiteiro brasileiro ainda ficou com dez por cento. Mesmo assim, olha que porcaria me saiu! Tirando o time do Barcelona, a Torre de Pisa e a mulher, nada ali presta!
— Mas a Torre de Pisa não fomos nós que fizemos.
— Logo vi! Se fôssemos nós, ela já tinha caído!
— Muito bem, espertinho, e o que é que você sugere? Abrir o capital da empresa? Ou vendê-la logo de uma vez pro Edir Macedo?
— Talvez não seja preciso tanto, a princípio, Pai. Podemos começar com pequenas medidas. Descentralização. Por exemplo, por que não transformar a Santíssima Trindade num Santíssimo Quarteto, pelo menos?
— Ah, é? E colocar quem como quarto? Pai, Filho, Espírito Santo e o Tocha Humana?
— Um gerente experiente, pai. Alguém que promova um downsizing. Pra que, meu Você, temos anjos, querubins, tronos, arcanjos, potestades e toda essa gente que fica aí encostada sem fazer nada? Além do mais, convenhamos, o que existe hoje é uma Santíssima Dupla, né? Porque o Espírito Santo mesmo, ninguém vê trabalhar. Faz tempo que venho levando essa cruz sozinho.
— Verbinho, Verbinho, você chegou aqui outro dia, não faz nem dois mil anos! As coisas sempre funcionaram da melhor maneira possível. Se não contarmos daquela vez que deixamos o ACM entrar, nunca cometemos um erro.
— As coisas mudam, Pai. E não adianta me olhar assim desse jeito. Foi o Senhor mesmo que criou a dialética!
— A hegeliana! A outra foi obra da concorrência!
— Outra coisa: marketing. Essa história de milagre tá ultrapassada. Com exceção dos neopentecostais e dos malufistas, ninguém mais crê. O que a gente tem que ter é uma campanha de marketing agressiva, com mídia eletrônica, outdoors, um bom slogan. Por exemplo: “Paraíso. Não interessa se você vem de pés juntos. Aqui você voa.” Ou então:
“Paraíso. Pelo menos aqui sua sogra não entra.” Umas fotos de mulheres usando apenas folhas de parreira também ajudariam...
— Pode ser, pode ser. Até que suas idéias não são tão ruins.
— E mais: a gente precisa relaxar o decálogo, Pai. Devemos partir para leis mais consuetudinárias, no modelo inglês, sacramentadas pelo povo, que já ensina: “não cobiçar a mulher do próximo, quando o próximo estiver próximo” e coisas do tipo. Que tal oferecer promoções? Por exemplo: no cumprimento de oito mandamentos, você é dispensado de dois. Ou ainda: cumpra os dez mandamentos e leve um pecado capital de graça.
— Muito bem, vou pensar sobre o assunto. Vamos marcar outra reunião, digamos, na próxima sexta-feira, daqui a um bilhão e novecentos milhões de anos.
— Pô, Pai, assim não dá! É por essas e outras que as coisas não andam!

12 março, 2008

ENTRELINHAS


— Ai, meu Deus! Você não é aquele escritor... o Márcio Pereira?
— Má-Mário. Mário Pereira. Eu mesmo.
— Me belisca.
— Ahn?
— Vai, aqui, no meu braço. Belisca, belisca, belisca, seu bobo...
— Que é isso, minha senhora, eu...
— Pega nos meus seios!
— O quê?!
— Meus seios, toma, agarra, morde, fica. Ui, você me dá uma coisa!
— Ca-calma. Isso aqui é um restaurante, dona, e...
— Ai, Márcio, eu nem acredito que encontrei você! Sou sua maior fã, viu? Maior. Não, sério, não tem igual a mim. Aquele seu livro, “Retorno do Chefe de Família”...
— Do Chef. O nome do livro é “O Retorno do Chef”.
— Pois então, “Retorno do Chef de Família”. Grande obra! A melhor dos últimos vinte anos, no Brasil, na minha modesta opinião. Nossa! Olha, jamais li, em toda a minha vida, crítica mais contundente ao modelo de organização de nossa sociedade escravocrata! Não, aquilo é genial!
— Minha senhora, a história de “O Retorno do Chef” se passa na Paris do século XX!
— Pois então. A contraposição da Quarta República com a tradição patriarcal brasileira, o esmiuçamento das contradições, das idéias de nossa elite colonial... Puxa! Quem poderia ter pensado nisso, senão você?
— Olha, eu agradeço o elogio e tudo, mas creio que tá havendo algum engano. O livro trata do mundo destroçado pós-Segunda Guerra, particularmente na Europa e...
— Ai, cheira!
— Que foi que a senhora disse?
— Aqui, entre meus seios, cheira, cheira!
— Uhmquemissoinhaminhora...
— Ui, você me deixa sem ar, Márcio!
— E você quase me mata asfixiado, sua louca!
— Viu? É o amor, Márcio. Eu sabia que nós fomos feitos um pro outro no minuto mesmo em que acabei de ler o seu livro. Disse pra mim: “Eu preciso conhecer esse homem!” Porque, Márcio, parece fácil, mas ninguém até hoje conseguiu captar a alma feminina como você faz ali.
— Não há uma única personagem feminina em “O Retorno do Chef”, dona!
— Você é que pensa. E as entrelinhas? São as entrelinhas, Márcio. Tudo ali é subentendido. Pensa que eu não saquei? Você faz o Chico Buarque parecer o Jece Valadão com aquele livro, Márcio. Lambe, vem, lambe minha orelha!
— Pára! Chega! A senhora...
— Maura, meu nome é Maura. Mas pra você é Má. Em nome de nossa intimidade. Comunhão de almas, Márcio, é o que nós temos. Vixe, eu ainda me lembro do arrepio que passou pela minha coluna quando descobri que o Murilo era gay. Com que sensibilidade você fez a revelação... Ah!
— Murilo, meu personagem? O Murilo não é gay! Quem disse que o Murilo é gay?
— Eu digo, Márcio, qualquer pessoa mais sensível diz. Tá ali nas entrelinhas, basta um pouco de atenção. Não é pra qualquer um, eu sei. Como, por exemplo, aquela menção de passagem ao futuro político brasileiro, à era Collor, ao relacionamento entre Zélia e Bernardo Cabral... Ironia trágica, eu acho que se chama isso. E como você domina essa técnica! Me dá tua língua, vai, me beija! Eu sou toda tua, Márcio! Toda... Mas... Onde é que você tá indo, meu bem? Volta. Sei que você não liga pra esse lance de idade, tá tudo dito no livro. E eu ainda nem falei do que pra mim é a apoteose dele: a releitura do mito de Tântalo sob um prisma neofoucaultiano... Márcio! Márcio! Márciooooo!
(saindo, furioso) Vá tomar nas entrelinhas, minha senhora!

11 março, 2008

SEXO NAS CAVERNAS


O grande problema da antropologia contemporânea, além de saber se o Kassab faz parte dos Sapiens, é destrinçar o momento em que nossos antepassados, talvez movidos por uma câimbra ou um espinho mais acerado, puseram-se de pé, transformando-se naquilo que Platão denominaria de único “bípede implume” — definição que perdoamos ao filósofo, uma vez que ao seu tempo ainda não haviam se desenvolvido outras formas de vida irracional, como a dos corretores da Bolsa.

Minha curiosidade, contudo, vai um pouco além, mais precisamente até o ponto em que, já de pé, os homens tiveram sua primeira relação sexual (o termo “homens” aqui, obviamente, é utilizado no sentido de “espécie humana”, uma vez que o homossexualismo — forma de relacionamento em que não é preciso conversar durante o café-da-manhã — só seria registrado mais tarde, no Egito e em algumas outras civilizações antigas, como Pelotas).

Imagino o instante em que, ainda um pouco desequilibrado e sentindo as primeiras dores de coluna, nosso tataravô se aproximou de nossa tataravó e, penteando as sobrancelhas com um pequeno arbusto, lançou charme, em sua linguagem primitiva.

— Pô, aí, mó legal esse lance, tá ligada?
— Só.
— Tu curte numa nice esse troço, meu?
— Só.
— Mermo?
— Só.
— Topas dar um créu pra desembaçar, então?
— Só.
— Só...

O homem piscou então um olho para a mulher, deu um beijo em sua face (donde provavelmente nasceu a primeira idéia da lâmina de barbear), fez um carinho em seu queixo, sorriu meigamente, desceu a clava em sua cabeça e a arrastou pelos cabelos para uma caverna remota.

Começaram aqui as dificuldades do nosso antepassado. Em primeiro lugar porque, tendo praticado o coito sempre com a parceira ajoelhada e de costas para ele, não conseguiu achar de pronto o órgão sexual da moça. E depois porque, vendo o falo de frente, a mulher provavelmente se assustou:

— Uma cobra! — deve ter gritado, desferindo uma porrada no pênis ancestral com uma pedra de médio porte, o que deixou nosso genearca prostrado no chão por uma meia hora, gemendo. Ao que ela se irritou: — Que lance é esse? Você me traz aqui e só você goza?

Após ter inventado os primeiros palavrões, um pouco mais calmo e com o conhecimento rudimentar que possuía, ligeiramente mais extenso que o de uma professora de Educação Sexual, explicou de que se tratava aquele instrumento e seus objetivos. Tomou novo alento e se preparou para a função. Todavia, lançando os olhos mais uma vez sobre o membro, a mulher não pôde deixar de rir:

— Uh, uh, uh. Como é feio, coitado! Careca e vesgo! E aquelas coisinhas balançando ali embaixo? Ih, ih.

Um anticlímax, sem dúvida. Mas deve ter sido enquanto a mulher gargalhava, de pernas para cima, que o homem descobriu onde se escondia o sexo feminino. Na ânsia de consumar o ato, contudo, ou por ter idéias muito avançadas para a época, errou o alvo, o que provocou um berro assustador por parte da fêmea.

— Uaaaaaaaai, caceta, isso dói! Sodomia, não!

Em seu debute, nosso antepassado não ultrapassou esses primeiros passos, segundo penso. O sexo propriamente dito só deve ter surgido numa segunda oportunidade, quando já estava mais experiente, tendo descoberto que a coisa se daria de melhor forma se ele se deitasse por cima da parceira e levasse uma caixa de bombons.

Porém, os estudiosos concordam em ao menos um ponto: foi naquele dia que surgiu a masturbação.

10 março, 2008

HIPERBIBASMO


— Ué? Por que você parou?
— Você gozou?
— Uhm-hum.
— “Uhm-hum”, sim, ou “uhm-hum”, não?
— Lá vem. Você não ouviu quando eu disse: “Isso, isso, ai, isso”, Caio Fernando?
— Ouvi. Acontece que você disse “issuuu, issuuu”, acentuando a segunda sílaba, ao passo que quando você vai gozar de verdade você diz “iiisso, iiisso”, marcando a primeira.
— Meu Deus! Eu creio que quando os sexólogos falam em algo pequeno, sensível e indispensável ao gozo, eles estão se referindo ao clitóris, Caio Fernando, e não ao acento tônico.
— Aqui não se trata de português, minha filha, mas de psicologia. Há mais coisas entre o períneo e o umbigo do que sonha vossa vã sexologia.
— Claro, claro, psicologia, né? De certo é o seu complexo de Edípo ou a inveja do penís.
— Muito engraçado da sua parte. Mas o fato é que você cometeu um ato falho.
— Quanto a isso, não resta a menor dúvida. Foi naquele 15 de julho, quando me vesti de noiva pra entrar na igreja.
— Continue brincando, pode brincar. Só sei que esse hiperbibasmo fala por si.
— Hiperbibasmo? Pra começo de conversa, Caio Fernando, é bom deixar o convencimento de lado. Fique sabendo que já vi bibasmos muito maiores que o seu. Você tem no máximo aí um “grande bibasmo” e olhe lá. Além do mais, não vejo como um deslocamento de acento possa ter alguma conotação sexual. A não ser que o “acento” em questão tenha “ss” em vez de “c” e estejamos falando de uma cadeira erótica, claro.
— Tudo bem, vamos recomeçar. Acho que faltou de minha parte um maior estímulo ao seu clítoris.
— Clitóris.
— Aaaaaah, viu? Olha aí o acento influenciando sexualmente. Duvido que você transasse com um sujeito que falasse clítoris em vez de clitóris.
— É diferente. Completamente diferente, Caio Fernando. Nesse caso, estamos falando de um erro crasso, de um “super-hiperbibasmo”. E, convenhamos, tamanho não é tudo.
— O problema é o mesmo, minha filha. No fundo, o problema é o mesmo.
— Não, no fundo, sobretudo em se tratando de hiperbibasmo, o problema é mais complicado, se é que você me entende. Agora vamos embora, vamos. Perdi a vontade de transar. Bem que mamãe me advertiu pra não casar com um gramático!
— Espera. Você ainda não respondeu.
— O quê, Caio Fernando?
— Gozou ou não gozou?
— Uf! Não, não gozei. Tá satisfeito com isso? Ou melhor, com issuuu?
— Sabia. Você não me ama mais.
— Quanta neura, Caio Fernando! Tudo isso só porque eu não gozei?
— Nunca nos aconteceu antes, Fátima Paula.
— Como não? Você acha que durante esses anos todos eu gozei todas as vezes que a gente transou, Caio Fernando?
— Claro que não. Sei que não. Pede a conta. Vamos embora. Mas nunca tinha cometido um hiperbibasmo...

05 março, 2008

CRENTES


Sempre me admirei com os crentes. Não falo exclusivamente daqueles sujeitos que se reúnem numa igreja aqui em frente de casa, jungidos pela crença de que o Senhor é surdo e não usa aparelho auditivo Telex, mas sim da credulidade num sentido mais amplo, seja em política, religião, futebol ou na certeza de que o armário está vazio e que o motivo por que um sapato dois números acima do seu está ao lado da cama se relaciona com o Efeito Estufa e sua influência sobre o tamanho dos pés no Hemisfério Sul.

Sim, já tive religião, time de futebol, partido político e chifres. Porém, desde quando me entendo por gente (“gente” usado aqui também num sentido mais amplo e englobando alguns quadrúpedes de médio porte), jamais me entreguei inteiramente a uma paixão ou, se o fiz, foi para largá-la dali a um tempo, substituindo-a por algo mais racional, como o fumo e o alcoolismo.

O que me espanta, sobretudo, no partisan é sua incapacidade de enxergar nuances ou o próprio umbigo. (Quanto a este último ponto, está claro que não me refiro à dificuldade de deslindar o umbigo pelo desenvolvimento de uma barriga eutrapélica que impede sua visão, bem como — e cito por experiência — de outras partes mais óbvias e pendentes do corpo localizadas abaixo da cintura.)

Afinal, parto sempre do pressuposto de que se um juízo me entusiasma demasiado ou é partilhado por um número grande de pessoas, tem alguma
coisa errada com ele. Isso serve para Deus (mas não para o diabo, em que creio piamente e acho até que é empresário do setor de call center), para o comunismo, para o capitalismo ou para as fraldas descartáveis Pom Pom, que larguei aos quatro anos, ao sentir, através de manifestações químicas bastante convincentes, que não eram tão boas quanto o divulgado, atirando uma delas heroicamente no corredor da escola e constatando:

— Isso é uma merda.

Lembro, por exemplo, de um Marx em Quadrinhos que li quando tinha uns sete ou oito anos e de minha reação diante das caricaturas dos capitalistas de dentes acuminados, capas de vampiros, reunidos em torno de uma mesa, contando uma pilha de dinheiro.

— Os filisteus não podem ser todos tão ruins e avaros — pensei à época. — Se é para mandá-los para o paredão, que seja por suas péssimas noções de estética.

Tirando o fato irrecorrível de serem os economistas insuportáveis, não acredito monoliticamente em nenhuma linha de pensamento, desconfiando sempre das menores verdades cotidianas, o que tem me metido em algumas pequenas embrulhadas — caso de quando me recusei a crer que devia aquela quantia de dinheiro à Receita ou que há uma instituição chamada SPC.

Custa a mim entender que um indivíduo não consiga rir de si mesmo. Diante desse tipo de gente, tenho a impressão de estar vendo um hipopótamo de terno, óculos e pasta 007. Então, boquiaberto, me pego freqüentemente articulando uma frase. E é com ela que encerro esta crônica: “Esqueçam o raciocínio lógico e a bipedia. O homem se distingue, na realidade, por ser o único animal inferior que se leva a sério”.

(Aviso aos desinformados: o livro “O Cabotino”, de Paulo Polzonoff Jr., o popular Cotoco, está disponível para download
aqui. Apesar de o autor não ser figura das mais agradáveis, o livro merece ser lido. A cortesia é de outro sujeito intragável: Branco Leone. Aviso aos mais desinformados ainda: continuo no Recife. A praia está péssima e os camarões insuportáveis. Na segunda, o blog volta ao ritmo diário.)

29 fevereiro, 2008

PROFISSIONAL DA ONOMATOPÉIA


— E você faz o quê?
— Eu? Sou profissional da onomatopéia.
— Ahn?
— Onomatopéia. Eu trabalho com sons.
— Como assim?
— Assim. Fluct-pu.
— Hein?
— Fluct-pu. “Assim”. Também faço “talvez”, “todavia” e “contudo”, olha aí: plocting, blabunz e digdag.
— Tá tirando onda comigo, rapaz?
— Chuá, chuá.
— Olha que eu te bato, cara! Não tira onda comigo que eu te bato! Cê tá falando sério?
— Ô! Fiu! Seriíssimo.
— E isso dá dinheiro?
— Bem, schlup, não posso reclamar. O mercado vem crescendo nos últimos tempos, pei. Esse negócio de significante e significado tem perdido a sua força nas últimas décadas. A tendência do falante da língua moderno e progressista é substituir palavras por sons ligeiramente articulados, de maneira que tenho ganhado algum dinheiro, pluf.
— E você pode me dizer, por acaso, como é que isso funciona, hein? Dão dinheiro pra você fazer “umb”, “blum”, “fit”...? Você tá rindo de quê?
— Dessa sua última frase.
— “Dão dinheiro pra você”?
— Não: “umb”, “blum”, “fit”. Isso não faz o menor sentido. Se você queria dar um exemplo onomatopéico de significado rarefeito, poderia ter usado “islupt”, por exemplo.
— Zilupt?
— É você! Não me chama de zilupt, hein? “Islupt”, eu disse. Já “umb”, francamente... É coisa de selvagens.
— Ah, sei. Já “plocting” é de um sentido extraordinário, né? Deve, inclusive, ter sido usado por Wittgenstein!
— Saúde.
— Como?
— Não foi “uitszentain” que você disse?
— Wittgenstein, o filósofo!
— Ah, pensei que cê tinha proposto um brinde. Glopre.
— Vem cá, você pode me dizer, afinal, de uma vez por todas, como é que isso de inventar sons te dá dinheiro?
— Bom, em primeiro lugar sou muito requisitado para fazer letras de rock e axé. Também temos aumentado nossa presença, ronc, em congressos de surfistas e workshops de escritores brasileiros famosos. Em programas de auditório, prestamos um serviço de atendimento de urgência. Caso uma conversa enguice, nos chamam e nós fornecemos alguns sons com que continuar o bate-papo, jog. Ainda atuamos em reuniões familiares e confraternizações de final de ano. Ah, e fazemos pequenas traduções, como de Shakespeare, Schiller e Cervantes. Enfim, temos estudos que nos permitem imaginar que vamos decuplicar nossos lucros nas próximas, quérit, décadas.
— Caraca!
— “Caraca”? É tudo o que você tem a dizer?
— Tô muito espantado...
— Use “kraputz”, então. “Caraca”! Nossa, rapaz, você precisa melhorar, urgentemente, seu vocabulário!

27 fevereiro, 2008

OS 10 CONCEITOS-CHAVE DO CONSERVADOR MODERNO


Como o capitalismo saiu vitorioso da Guerra Fria e o comunismo atualmente só existe em lugares obscuros como Cuba, Vietnã e a cabeça de Diogo Mainardi, a moda brasileira mais recente é se tornar conservador. Tem muita gente lendo e, em alguns poucos casos, até entendendo Burke, Chesterton, Friedman e Johnson. Em compensação, há também pessoas cometendo alguns equívocos desconcertantes, como certo amigo meu que, no afã de seguir o laissez-faire, levou tão a sério a Escola Austríaca que, mês passado, em nome do Estado mínimo, mudou-se para Sergipe.

Por esse motivo, e apesar de social-democrata de matiz escandinavo (para mim, como já disse mais de uma vez, trata-se do sistema mais justo do mundo, sobretudo quanto à aparência das mulheres), resolvi prestar um serviço de utilidade pública e reunir, abaixo, os 10 conceitos-chave da nova crença conservadora em nosso país. Leiam, decorem e, por fim, testem a eficácia deles gritando-os em voz alta ao invadir um acampamento de sem-terra. Confiram.

1. Todos os problemas do universo, a começar pelas supernovas e a extinção do sol daqui a bilhões de anos, são culpa da esquerda, a quem se devem também alguns desastres naturais como o furacão Katrina.

2. Os problemas do Brasil começaram quando, em vez de ensinar os índios a serem escravizados e torturados de acordo com as leis do mercado, Pedro Álvares Cabral, notório esquerdista, preferiu distribuir Bolsas Pau-brasil entre eles, acabando com a vontade de trabalhar dos selvagens e transformando-os em alcoólatras, vagabundos e hippies.

3. Graças a escravos negros e esquerdistas motivados por utopias estúpidas como a da igualdade racial e outras baboseiras maximalistas, nosso país não pôde se aproveitar das vantagens competitivas de uma mão-de-obra barata, sendo obrigado a trocá-la, após um período inicial de testes de apenas três séculos, por trabalhadores que recebem — pasmem — dinheiro em troca de seus serviços.

4. O movimento militar de 64 foi um contragolpe. Todo o mundo sabe que aqueles dez ou quinze sujeitos armados de bodoques, maoístas da pior espécie, mais cedo ou mais tarde combateriam as forças armadas e as derrotariam com facilidade.

5. O fechamento do Congresso e a redação de uma nova constituição por parte de Fujimori, além de inúmeras outras violações da ordem legal em diversas partes do mundo durante a década de 90 não tiveram grande repercussão nem levantaram clamores por democracia no Brasil — diferentemente do que ocorre hoje com relação à Venezuela — porque, como se sabe, pela definição histórica clássica, a ditadura só se configura como tal quando o ditador detém todos os poderes, suprime os direitos humanos, sufoca a oposição e usa camisa vermelha com boina.

6. A classe média é um estamento social lindo (Veloso, 2002), verdadeiro guardião dos valores do bem. Sem ela, as empregadas domésticas estariam subindo pelo elevador social e tomando banhos em nossas piscinas, além de recebendo – Deus nos livre – salário com desconto da Previdência.

7. A crise ética e moral que vivemos não tem nada a ver com a decadência dos valores da sociedade liberal moderna, a partir do século XIX, muito menos com gente como Nietzsche e Dostoiévski. É resultado apenas do fato de as escolas nacionais, esquerdistas que são, terem adotado Frei Betto e outros perigosos teóricos comunistas no currículo.

8. Os brasileiros são esquerdistas: daí, por exemplo, as filas e os sinais de trânsito não serem respeitados no país.

9. Ao contrário do que ocorre em outros países menos altruístas e pouco baseados no pensamento de Jefferson, a política externa dos Estados Unidos não procura, jamais, influenciar a de Estados independentes no sentido de se beneficiar comercialmente, mas apenas para espalhar valores democráticos e bonitos.

10. Prêmios Nobel como García Márquez e Saramago são burros, burros, coitados. Afinal, está cientificamente comprovado que é impossível ser inteligente e de esquerda ao mesmo tempo.

25 fevereiro, 2008

MEU PLUTÃO BRASILEIRO


(Texto escrito originalmente em 25/08/2006. Afinal, continuo aqui no Recife, em árdua luta contra ostras, lagostas e crustáceos em geral. Quem quiser me ajudar neste momento de dor que atravesso, favor enviar uma caixa de single malt.)

Semana passada, uma notícia me deixou atólico e, pior, fez com que me sentisse um ignorante por não saber o significado da palavra “atólico”: Plutão, imaginem vocês, foi rebaixado para a segunda divisão do campeonato intergaláctico e, a partir de agora, não é mais considerado um planeta, passando a ser identificado como um astro de menor grandeza, como os meteoros e o Nelson Ned.

Vi a reunião de astrônomos de todo o mundo para a votação de matéria tão importante, sem a qual o futuro da humanidade estaria irremediavelmente comprometido, e fiquei imaginando se a discussão fosse feita no Brasil.

Para começo de conversa, o assunto não seria tratado por astrônomos, um povo que vive com a cabeça nas nuvens e nada entende dos interesses públicos, e, sim, no Congresso Nacional.

Ali, o nobre deputado Pacóvio dos Santos, de Cudomundópolis do Sul, após receber dinheiro de um lobista, apresentaria uma emenda, defendendo que o planeta não perdesse seu status. A bancada do cometa Harley, sustentada por grandes empreiteiros, logo se inflamaria, exigindo o mesmo tipo de tratamento para o corpo celeste de sua predileção.

Então, pensando na futura instalação de uma Assembléia Legislativa em Urano, um grupo de congressistas apoiaria todas as iniciativas acima, contanto que Júpiter passasse imediatamente à categoria de sol.

— Absurdo! Se Júpiter virar um sol, Urano tem no mínimo que subir à condição de planeta habitado, como a Terra! — gritaria um exaltado parlamentar, calculando os recursos que proviriam de uma possível cobrança de IPTU na região.

A proposta seria examinada. Bem como uma, que pretenderia elevar os satélites da SKY e da DirecTV da condição de artificiais para naturais e ainda outra, que preveria a abertura de uma licitação para a construção de uma estrada ligando Feira de Santana à lua.

Por aí se seguiriam acaloradas disputas. Até que, no curto espaço de três anos e sete meses de sérios debates e após um pequeno gasto de R$ 50 bi do orçamento, finalmente teríamos o resultado do imbróglio.

A partir de 2015 o sistema solar passaria a contar com três sóis (sendo Marte considerado suplente), trinta e três planetas (sendo dezenove ricos em oxigênio), quatrocentos e vinte e dois satélites (sendo o Piauí um deles) e um milhão, trezentos e quatorze mil impostos e taxas, retroativos ao ano de 1500, para cobrir seus custos de manutenção.

21 fevereiro, 2008

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (8)


Após meia hora de conversa com um esquerdista, tenho certeza de que sou pelo menos social-democrata. Após meia hora de conversa com um direitista, tenho certeza de que sou pelo menos stalinista.

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Hobbes que me desculpe, mas após observar o pensamento de meus contemporâneos, cheguei à seguinte conclusão: o homem é o jumento do homem.

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Jamais deixarei de acreditar na paz e no amor. Creio piamente que um dia a Nasa ainda será capaz de encontrá-los em algum lugar do universo.

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A história sempre é contada pelos vencedores. Vejam, por exemplo, o diabo como foi injustiçado.

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Diz o senso comum que a vida não é filme. Eu discordo. Acho ela que é um filme, sim. E pela qualidade, é brasileiro e foi produzido nos anos 70.

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Alguém me chama para assistir a um certo espetáculo teatral que mistura festa, sarau, intervenção, comédia, farsa, instalação, performance e happening. Se a todas essas manifestações acrescentasse a empalação dos autores, eu iria ver.

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Por mais que se fale mal dele, a verdade é que o cinema brasileiro tem uma grande virtude: o preço impeditivo dos ingressos.

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Mas é claro que eu acredito em vida após a morte. Segundo minha crença, aliás, depois que morre, ali por volta dos trinta ou quarenta anos, o sujeito vira burguês.

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Durante décadas tentei manter um diálogo com Deus. Desisti faz alguns anos. Não dá. Ele se acha muito superior.

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Tudo evolui. Vejam o perfeito idiota latino-americano, por exemplo. Após revisar seus conceitos, agora ele está certo de que Estado bom é Estado morto, os EUA são lindos, a mulata não é a tal e todos os problemas do universo, a começar pelos buracos negros, se devem exclusivamente à ideologia marxista, que como todos sabem foi a principal responsável por convencer Eva a comer a maçã.

19 fevereiro, 2008

AS DEZ VERDADES SUBLIMES A RESPEITO DE CAETANO VELOSO


É provável que vocês, leitores de vida social intensa, não tenham visto. Mas eu, cujas saídas mais empolgantes ultimamente têm sido ir do quarto ao térreo de elevador, assisti do começo ao fim ao “Som Brasil” com Caetano Veloso (atenção: este texto foi publicado no Sopa de Tamanco há cerca de um mês; ainda estou tendo sérios problemas para abrir caranguejos e ingerir cervejas geladas aqui no Recife para conseguir escrever), o que me levou a uma depressão de sete pontos na escala Werther.

Que seria, porém, do existencialismo francês, caso não houvesse a depressão? Bom, Sartre provavelmente não teria precisado comer Simone de Beauvoir, nem tampouco, na tentativa de dar um pé na bunda dela, se sairia com aquela história de que o homem está condenado a ser livre.

Mas esse não foi o caso e o fato é que a depressão é um grande motor do pensamento, graças ao qual, numa série de satoris só alcançados talvez pelo Dalai Lama após um ou dois baseados, consegui resolver as questões mais profundas a respeito daquele que é nosso maior ídolo baiano irmão da Maria Bethânia de todos os tempos.

A seguir, aquilo que você sempre quis saber sobre Caetano, mas tinha preguiça de perguntar, porque estava escutando o Chico mesmo e não ia se dar a esse trabalhão todo.

1. Quantos dentes tem Caetano?

Cientificamente comprovados, são 52. Mas há quem arrisque 103.

2. Por que, quando canta, Caetano segura os rins?

Idade.

3. É verdade que Caetano Veloso não existe, é apenas um disfarce meio esquisito do Fernando Henrique Cardoso?

Os defensores da Teoria da Simetria dos Egos afirmam que sim. Outros estudiosos discordam, assegurando que, o cabelo do Malan tudo bem, mas aqueles pulinhos do Caetano seriam demais até mesmo para o FHC.

4. Se Caetano já atingiu sua meta, que era superar Mick Jagger, ainda que fosse na ausência completa de senso de ridículo, por que ainda insiste em subir ao palco?

Para superar a Dercy Gonçalves.

5. É o sol sobre a estrada, é o sol sobre a estrada, é o sol?

Talvez seja, talvez seja, talvez.

6. Quem, além do ego e de um espelho, Caetano levaria para uma ilha deserta?

O João Gilberto. E, com algum sorte, um maremoto.

7. Qual a principal contribuição de Caetano para a cultura brasileira nos último cinqüenta anos?

Apesar de toda a crítica que se possa fazer a ele, a verdade é que sem Caetano o exercício labial aplicado ao canto estaria ainda hoje na Idade da Pedra.

8. Por que, quando canta, Caetano franze a testa sem parar?

Segundo pesquisas realizadas pela Casa Jorge Amado com apoio da Fundação do Afro-Dendê Eterno, a testa de Caetano é parte independente do restante do corpo e, como tal, a única a conservar intacto o senso de ridículo.

9. Existe em todo o universo algo mais patético que os sinais de metaleiro que Caetano faz com as mãos ao cantar rock?

Sem dúvida. Você provavelmente tinha saído da sala para ir ao banheiro quando ele tirou teatralmente o casaco jeans.

10. É verdade que Caetano é um intelectual?

Sim. Apesar de não ler a Veja, Caetano tem uma boa coleção de Capricho, além de ter sido dos primeiros assinantes da Caras em Salvador.

14 fevereiro, 2008

GUERRA


Meu pacifismo tem um limite: a leitura de algumas páginas de Heródoto ou Plutarco. Bom, confesso que este último também me dá uma vontade irresistível de enrolar um lençol ao redor do corpo, colocar algumas folhas de louro no cabelo e descair a mão com um gritinho, dizendo:

— Afe, César! Que aqueduto grande você tem!

Situação constrangedora que reprimo a custo, após coçar o saco com um esmeril ou, em casos extremos, ler alguma coisa de Hemingway. Porém, ao menos o historiador de Halicarnasso desperta em mim o cita que todos trazem dentro de si. Sim, todos temos um cita dentro de nós e se vocês não o encontraram ainda, aconselho procurar ali naquela fenda entre o estofado e o encosto do sofá, junto com a caneta Bic e o controle remoto.

A simples leitura de um parágrafo dele me enche de coragem e leva a me imaginar nas situações mais heróicas: arrancando a dentadas a cabeça de um medo, furando os olhos de uns tantos assírios, lendo os artigos do Fernando Henrique na Folha de São Paulo etc. Não foi à toa que, mais de uma vez, minha mulher chegou em casa e eu estava atracado com a TV, trocando cusparadas com o Datena e acotovelando o aparelho de DVD, que tinha tomado seu partido.

Bem, outro dia falei aqui da forma eficaz como estabeleci uma relação afetiva com os pombos que nos azucrinavam no apartamento novo (“novo” sendo, obviamente, um vício de linguagem, posto que os arqueólogos não chegaram ainda a estabelecer definitivamente a data em que ele foi construído). O que não sabia é que, em termos de barulho, o vizinho de baixo — que se não criou asas ainda é por estar, com relação aos pássaros, dois degraus abaixo na escala evolutiva — descobriu método mais pronto de provocar irritação: o pop dos anos oitenta.

Esta semana, relia o primeiro livro da História e ajudava Dario a galivar as fronteiras do império persa (sem meu auxílio, digo modestamente, ele jamais teria construído uma ponte sobre o Danúbio), quando ouço, dois volumes acima do insuportável, a voz — agradável como a de uma vara de porcos que houvesse aspirado gás hélio — de Nina Hagen.

Até então, tinha suportado as afrontas à moda anglo-hindu: de um lado, com suspiros, balançar de cabeça e cânticos a Krishna, para que o infeliz tivesse o mesmo destino dos Kauravas nas mãos dos Pandavas; e, de outro, comendo de colher uma quantidade razoável de Lexotan. Mas naquele dia a visão do Ponto Euxino me repletou de bravura e resolvi contra-atacar.

Acomodei estrategicamente as caixas de som no parapeito da janela, seguindo as boas regras da poliorcética medieval, e liguei o estéreo no último volume, atacando com a Nona (não, não joguei minha avó sobre ele), mais particularmente na parte do poema de Schiller.

O inimigo acusou o golpe (não deve ser um sujeito muito dado a expansões de júbilo) e, recolhendo momentaneamente a infantaria, atacou com os cavalos, ou melhor, com os jumentos: A-HA.

Bambeei qual Heitor, mas enfim consegui me fixar em pé e, subindo na biga, açoitei os cavalos com o Libiamo ne'lieti calici da Traviata. O contendor deixou o gládio cair e fugiu para trás de uma azinheira. Quando o pensava aluído, sacou do arco e desferiu um golpe inopinado: Tracy Chapman.

Caí, percebendo que algum deus auxiliava o oponente, pois, vítima de um passe de taumaturgia, sentia que minha massa encefálica começava a se transformar em cocô. Trêmulo, arrastei meu pingue corpo até o carro terso e, quase sem ar, cobrindo a cabeça com um elmo, resolvi abandonar a guerra convencional e passar ao uso de armas atômicas: apertei, então, o bass e, avançando com a infantaria ligeira, soltei sobre ele Die Walküre.

Em menos de dois minutos, senhores, ele assinou o tratado de rendição. Não foi nem preciso usar o Cid Moreira declamando trechos da bíblia, meu último recurso. Vitorioso, recostei-me então no sofá, baixei o som e voltei a Heródoto.

A vitória foi de tal maneira cabal, que o homizião não voltou a nos incomodar até hoje. Se bem que isso pode ser impressão. Pois ainda continuo surdo.

(Bem dizia o pinto do Marquês de Sade: a vida é dura. Nem bem voltei das férias e já me vejo na obrigação de viajar ao Recife, onde passarei dias terríveis à beira-mar, comendo camarões e bebendo insuportáveis cervejas geladas. Voltarei a atualizar o blog de lá, na segunda-feira, contando as vicissitudes de minha sofrida estadia. Isso, claro, se a ressaca deixar. Conto com as orações de vocês.)

13 fevereiro, 2008

IRONIA PELOS DIAS QUE CORREM


— Sr. Onofre, eu sou o agente Jonas e esse aqui o agente Nunes. Nós estamos entrevistando os moradores das redondezas, porque houve uma ironia hedionda no bairro ontem à noite e procuramos o culpado. O senhor reconhece esse homem aqui no retrato?
— Voltaire? Digo, vou teire que pensar um pouco... Essa peruca, esse bastão, esse nariz... Não, não, nunca vi mais nobre.
— O senhor pensava ontem à noite, entre as 20 e 22 horas?
— Ih, nada. Tenho evitado. A última vez que eu pensei deu uma dor de cabeça dos diabos. Troquei pela televisão.
— Tem um álibi que possa comprovar isso?
— Claro, claro. Entrem. Olha aqui no sofá: Veja, Estadão... Também leio Zibia Gasparetto, olha ali na estante. Discos do É o Tchan. Da primeira formação, claro. Era mais encorpada, se é que o senhor me entende. Ali na mesa tenho ainda DVDs de musicais cantados em português. Enfim, e aquela reprodução de Romero Britto no canto da parede.
— Alguma pessoa, sr. Onofre. Havia alguma pessoa com o sr. ontem à noite?
— Pessoa, pessoa, eu não diria. Tinha o meu cunhado.
— Isso é humor?
— Calma, Nunes, calma. Ele vai falar. E então, sr. Onofre? Sobre o que conversavam o senhor e seu cunhado, no momento do crime?
— Trivialidades. Quem matou a heroína da telenovela, quantos sapatos tem a primeira-dama, qual a Big Brother mais loura, a conceituação do objeto fenomenológico versus a coisa-em-si de Kant, essas coisas.
— Kant?! Seu canalha! Kant?!
(cantando) “Como uma deusa, você me mantém! E as coisas que você me diz, me levam além!”
— Solta, Nunes, solta. Não precisa ter medo, sr. Onofre, não vamos machucar o senhor. Só explique uma coisa: temos o depoimento de uma moradora da rua que afirma ter visto o senhor, dias atrás, sentindo prazer ao cantar certa ária do Leporello no Don Giovanni. O que o senhor tem a dizer a esse respeito?
— Mentira, oficial. Acho ópera coisa séria. Se gargalhei foi como uma manifestação profunda de depressão.
— E sobre o senhor ter presenteado um dos seus filhos com as Viagens de Gulliver em livro, sem as descaracterizações da Disney?
— Outra calúnia. Quero ser amarrado por anões numa ilha distante se isso for verdade.
— Isso é humor? Ahn? Isso é humor?
— Deixa, Nunes, deixa. Bem, não é verdade, sr. Onofre, que o senhor gosta de Molière?
— Ué? Mas aí todo mundo gosta. Se tem dois peitões então...
— Patife!
— Larga, Nunes, larga. Sr. Onofre, meu amigo tá um pouco exaltado, mas eu tenho que ser sincero com o senhor: a sua situação é crítica. Temos sérios indícios que nos levam a acreditar que o senhor alimenta o hábito de ditos picantes e é dado a trocadilhos e jogos de palavras. Não é fato que ontem à noite, entre as oito e dez horas, o sr. teria dito, aspas: “Apesar do que afirmam os céticos, creio que os problemas da humanidade podem ser resolvidos, sim, e isso está ao alcance de nossas mãos. Melhor, dos nossos dedos. É só apertar um botão.”?
— Pô, mas eu tava brincando! É óbvio que eu não quero destruir o mundo! Isso nunca passou pela minha cabeça, oficial!
— E ainda confessa, calhorda?
— Prende, Nunes, prende.

12 fevereiro, 2008

CIRCUNCISÃO


Há quem prefira os cantares de Salomão. Mas para mim a parte mais poética da bíblia se encontra no Êxodo, capítulo 4, versículos 24 a 26: “Estando Moisés a caminho, numa estalagem, atacou o Senhor a Moisés e procurava matá-lo. Séfora tomou então uma pedra afiada, cortou o prepúcio de seu filho e atirou-o aos pés de Moisés, dizendo: ‘Tu me és um esposo de sangue!’ Assim o Senhor o deixou.”

Não sei vocês, rapazes. Quanto a mim, se o Senhor me propusesse que minha salvação dependeria de uma circuncisão com uma pedra afiada, ligaria para o diabo na mesma hora, oferecendo minha alma:

— Uma noite de sexo selvagem com a Uma Thurman e duas caixas de bourbon. E não se fala mais nisso.

Cita-se muito a abertura do mar Vermelho. Para mim, contudo, o mais notável milagre de Deus é a existência de judeus ainda hoje, após séculos de circuncisão tão rudimentar e na ausência de mercuriocromo. Ainda mais sob aquele vento do deserto, que devia proporcionar alguns erros na operação: contam que a tradição dos castrati nasceu ali.

Recuso-me, por isso, a acreditar que os hebreus concordaram tão pacificamente com os artigos do Levítico, sem uma mínima negociação. Segundo o Evangelho Apócrifo de Santo Hipólito, o da Haste Longa, após a escritura do decálogo, Moisés teria proposto:

— Tudo bem, Senhor, não usar cadeiras em que uma mulher menstruada se sentou e não comer carne de porco, a gente aceita. Agora, esse negócio aqui de supositórios de nabo todas as sextas vai causar alguma revolta.
— Ok — respondeu o Onipresente, que não passa de um puritano inglês. — Troco pela extração dos pêlos do saco escrotal a dentadas.
— Sem xilocaína? Sei não... Que tal se fosse alguma coisa que a gente não usa, como o apêndice ou o cérebro entre os cantores de rock, por exemplo?
— Tá, tá. Dá a tábua aqui. Pronto. Vocês ficam sem o prepúcio e estamos quites. Agora deixa eu ir que ainda tenho uma porção de catástrofes naturais para criar.
— Só mais uma coisa, ó Pai. Não dá pra esticar o sabá por mais um ou dois dias, pelo menos depois do Carnaval?
— Ah, vai catar coquinho!

E tudo isso por conta de uma maçã, o que me parece uma reação desproporcional do Senhor — mesmo sabendo que Ele, em suas relações com os mortais, é adepto da Doutrina Rumsfeld.

Se bem que, a se crer no Evangelho de São Jabuleu, o do Orifício Absconso, o que teria precipitado Adão e Eva do Paraíso não teria sido propriamente o fruto proibido, mas o que se seguiu ao seu consumo.

— Prova, prova — teria dito Eva, com olhar oblíquo.
— Xeu ver — falou Adão, mordendo a maçã. E em seguida: — Grande bosta!

Ao que Deus interveio, puxando nosso ancestral pela orelha:

— Palavrão não, hein?

De qualquer forma, fico com o agnosticismo. Pelo menos não envolve rituais macabros. Além de cabeçadas na parede e tentativas de morder o dedão do pé em momentos de crise existencial mais exacerbados, é claro.

11 fevereiro, 2008

DO POLITICAMENTE CORRETO


— Eu não fiz nada não, eu juro!
— Ah, não? Toma de novo! E essa, e mais essa. E então, refrescou a memória agora?
— Ai! Mas o que você tá fazendo? Quem são vocês, afinal?
— CPI.
— Ué? Mas eu nem sou filiado ao PT!
— CPI. Central de Patrulhamento Ideológico, canalha! Toma, toma!
— Ai! Isso dói. Cadê os meus direitos?
— Os seus direitos tão por aqui. Mas se continuar negando, vai perder os dois: o pé e a mão. Vai falar ou não vai, engraçadinho?
— Tudo bem, eu confesso: eu queria comprar aquela calcinha de renda. Foi um desejo repentino, uma coisa que me passou assim pela cabeça. Fui lá na loja e pronto, comprei. É proibido comprar calcinha por acaso? Todo mundo agora tem que se vestir feito atriz da Globo em festa? Mas eu não sou veado, eu juro!
— Homossexual.
— Não sou!
— Gay.
— É você!
— Toma, toma! “Homossexual” ou “gay”, você deveria ter dito “homossexual” ou “gay”, seu calhorda, e não usado esse termo preconceituoso que você usou! Por essas e outras é que você tá aqui. Agora confesse: que palavra você empregou na loja pra descrever a calcinha?
— Renda, ué. Calcinha de renda. Por quê? Deveria usar “pecúnia”?
— A cor!
— Preta...
— Toma, toma! Como é que você tem coragem?
— Ai! Tá, tá, não precisa bater. Se o senhor prefere, eu troco por vermelha.
— Você me dá nojo. Toma! Que espécie de ser humano é você? Calcinha de rendas afro-coloridas. Dói dizer isso?
— Se o senhor não bater enquanto eu falo, até que não.
— Jorjão, coloca o homem no falo-de-arara!
— Não, por favor! Eu juro que nunca mais conto piada de anão! Gente burra pra mim, de agora em diante, é neuronialmente desfalcada! Vou passar férias na Argentina e até usar mesóclise! Não, pelo amor de Deus! Ele tá vendo o que você tá fazendo!
— Quem disse a você que Deus é homem, seu sexista? Misógino! Toma! Jorjão!
— Disse “ele” no sentido de “ela”! Quem sou eu pra falar mal de Deus, um ser infinito? Eu respeito as minorias!
— Isso, Jorjão! Despe o homem. Hoje ele vai aprender a chamar urubu de meu caucasiano.
— Não! Socorro! Eu tenho nordestino na família: minha empregada é baiana!
— Muito bem, agora que o sujeito tá nu, amarra ele ali.
— Eu sou judeu!
— Sem circuncisão?
— Quer subgrupo mais discriminado?
— Leva o cara, Jorjão. Agora ele... Ahn? Mas o que é isso? Não acredito! Esquece, Jorjão. Solta o homem.
— Por quê, chefe? Ele é branco, rico, de olhos azuis e toma banho todos os dias!
— Eu sei, eu sei. Mas tem um micropênis. Solta.
(irado) Seu filho de uma comerciante de sexo! Me dê uma taça de vinho e coloque Roberto Carlos pra você ver! Te mato, te mato!

08 fevereiro, 2008

PELO DESMATAMENTO DE CRIANÇAS E A INCINERAÇÃO DE VELHOS


Há quem acredite que a internet, ao contrário do que normalmente se divulga, veio para atentar contra a liberdade de expressão. Isso porque acabou com a única função verdadeiramente louvável de nossos jornais e revistas: a de embrulhar peixes. Não aceito a hipótese por uma razão muito simples: homem antenado, o luso-açougueiro aqui da esquina de casa, por exemplo, substituiu o papel por monitores de computador, e o resultado é que o novo embrulho abrange muito mais mercadorias, além de influenciar positivamente em seu peso.

Foi graças a esse homem de visão — sem dúvida, um adepto das teorias de McLuhan — que, voltando de férias, tive a oportunidade de ler sobre os fatos políticos das últimas semanas, num pedaço de tela sujo de sangue — única forma de me aproximar dos meios impressos ultimamente, uma vez que substituí, há tempos, a leitura de jornais por placas de trânsito: o português é errado e as informações incertas do mesmo jeito, com a vantagem de não ser preciso ser assinante de um provedor.

Entusiasmado, soube que, em mais uma demonstração de celeridade ímpar, tão-logo se deu conta dos desmatamentos na Amazônia, em 2007, nosso governo fez uma reunião de emergência para discutir medidas que orientem o estudo de propostas de futuros encontros que proponham a realização de sondagens visando ao debate de iniciativas que procurem formar grupos de avaliação para estabelecer metas a serem seguidas pelos delegados de uma assembléia que gere, quem sabe, talvez, algum dia, idéias sobre o que fazer a respeito da questão.

Sei que os golpistas e as elites brancas de sempre, exigindo que o governo faça mais do que aquilo que é seu dever constitucional, como dar moradia, saúde, alimentação e trabalho a banqueiros, vão reclamar pelo fato de a medida ter saído só cinco anos após a posse do presidente.

Ora, não me alongando a rebater calúnias, digo apenas o óbvio: como o governo poderia tomar medidas contra o desmatamento de 2007, se só assumiu em 2003? Quando menos por amor a Descartes, seria preciso esperar quatro anos transcorrerem, tempo este necessário para que, primeiro, nossas autoridades se apercebessem de que a Amazônia faz parte do território nacional — ou alguém acha que com tanto mato é fácil se localizar por ali? — e, segundo, aguardassem que alguma notícia ruim sobre o desmatamento surdisse — mais uma prova de que este é um governo moderno e se livrou definitivamente de idéias comunistas ultrapassadas, como o planejamento das ações.

Assim, inspirado pela reconfortante eficiência de nossos gestores públicos, acabei por descobrir um artifício engenhoso para detonar a revolução educacional de que tanto o país necessita: o desmatamento de crianças e o aquecimento de analfabetos. Pensem bem: se brasileiros abnegados iniciassem a invadir escolas caindo aos pedaços para dar machadadas em crianças ou a entrar clandestinamente em asilos de velhinhos analfabetos para tocar fogo em suas dependências, dentro em pouco, no máximo cinco anos, o governo afinal perceberia a existência de um problema na Educação e, quiçá, na Previdência brasileiras.

Prevejo que alguns sujeitos ligados a valores afonsinos como os defensores dos direitos humanos insinuarão que, caso a política surta efeito, teremos exterminado crianças e idosos antes que consigam obter benefícios. Uma alegação, obviamente, das mais pancrácias. Para que é que temos uma eficiente política reprodutiva no país, que impede o acesso das pessoas a informações sobre métodos contraceptivos, além de restringir o aborto a casos extremos, como, por exemplo, aqueles em que os pais têm dinheiro para pagar por uma intervenção em clínica clandestina? Esperaríamos, portanto, apenas o tempo de mais uma geração nascer para a iniciativa pedagógica triunfar, ó gente sem espírito cívico!

Diante de tal perspectiva, conclamo: não percamos o momento histórico, concidadãos – ajamos o quanto antes. Esparta nos espreita, orgulhosa. O futuro do Brasil está em nossas patas.

01 fevereiro, 2008

COMO LIDAR COM POMBOS – UM ESTUDO DE CASO


Eu era um feliz morador de Moema, dos poucos bairros paulistanos onde ainda é possível ver flora e fauna: passarinhos que acordam você pela manhã, árvores que se espalham pelas ruas e jumentos que compram pão ao cair da tarde, chamando Lula de ladrão e, coerentemente, votando de quatro em quatro anos em Maluf.

Ao contrário dos torneios medievais, no entanto, a vida não é justa. E os credores, seres sem coração, levam tudo ao pé da letra de câmbio. De maneira que tive de me mudar recentemente para Santa Cecília, localidade perto do centro. Pelo menos é o que me dizem, e eu, cujo senso de localização se assemelha ao de um hebreu no deserto, acredito. Deve se situar, ao menos, ali pelo segundo ou terceiro círculo.

O apartamento é bom. Para se ter uma idéia, conta com um sistema de drenagem bastante eficiente, o qual canaliza os pequenos dilúvios que caem sobre a cidade no verão, criando cachoeiras que não fariam feio se comparadas aos jardins da Casa da Dinda. Não apareceu nenhuma carpa por aqui ainda. Mas, em compensação, quando vemos a chuva escorrer pelo taco e lembramos do aluguel, temos certeza de que fomos roubados.

Quanto ao verde, se é verdade que o bairro não o tem em abundância, o prédio possui uma pequena reserva de vida silvestre no mofo que embeleza sua fachada. Além disso, é sempre possível matar a saudade da cor em dias de jogo do Palmeiras. E, assim, íamos levando tranqüilamente a vida, sem reclamações ou nostalgia, entre uma tentativa de suicídio e outra.

Contudo, a biodiversidade em São Paulo é gigantesca. Destarte, ainda que seja possível ver quadrúpedes da mesma qualidade dos de Moema, por aqui os animais são um pouco diferentes. Tínhamos trocado de bom grado os beija-flores por baratas, os pintassilgos por ratos e os novos ricos por velhos pobres. Porém, não contávamos com a existência por essas bandas de um bicho asqueroso, típico da cidade. Não, não me refiro ao Otávio Mesquita e, sim, aos pombos.

O pombo, como se sabe, surgiu no sétimo dia da Criação, quando Deus tinha ido para Ilhabela, mas o diabo, que trabalha sob o regime da CLT, estava desperto e pronto a se vingar de sua queda. Daí terem surgido o pombo, o Chávez e o IR Pessoa Física. Sendo que, dos três, o Chávez e o pombo são os únicos que grulham.

Ora, após duas semanas acordando ao som de pombos é que me dei conta do motivo por que a humanidade, inovando o sistema de correios, criou o sedex. E, confesso, passei a escutar com outros ouvidos o rap, o funk e a música sertaneja. As harpias não me pareciam mais criaturas tão horrendas e, às vezes, me pegava pensando com carinho na sogra.

Vendo que minhas olheiras atingiam dois UJVM (Unidade Jarbas Vasconcelos de Medida), minha mulher me sugeriu que tentasse criar amizade com as aves, comprando algo para elas comerem.

Não sou muito sociável e o máximo que chegara de confraternizar com aves insuportáveis até então tinha sido ouvir discursos de tucanos. No entanto, como último recurso, resolvi, uma bela tarde, ir ao supermercado e comprar alimento apropriado aos bichos.

Ah, irmãos, que atitude sábia! São Francisco não obteria resultado mais satisfatório com essas amáveis espécies. Imaginem que, desde que lhes dei de comer, faz cinco dias agora, não ouvimos mais um único som. E isso tudo — oh, bichinhos frugais! — sem que eu tenha lhes dado mais que 100ml de arsênico.

31 janeiro, 2008

DIANTE DA TV – APELIDOS


— Como assim? Separou por quê, cara? Vocês pareciam se dar tão bem...
— A Marly, ela...
— Quer um filho? Toca a bola, toca a bola!
— Que nada! Você não vai acreditar.
— Te traiu?
— Pior. Muito pior. Chuta! Pra fora... A Marly... A Marly me chamou de “Nhonhonga”, cara. Pronto, disse.
— Nononga?
— Antes fosse! “Nhonhonga” mesmo. Com “h” e tudo.
— Peraí, bicho, tu tá me dizendo que separou porque a Marly te colocou um apelido? Ih, lá vem o contra-ataque!
— Desarmou. Apelido? “Nhonhonga”? Isso é apelido que se me apresente? Se ainda fosse “Xurungo” ou “Pitoca”... “Nhonhonga” não dá! Não tem volta.
— Tu ficou louco, Abelardo? Tu vai jogar fora 5 anos de casamento por causa de um Ninhonga à toa?
— Nhonhonga! Nho! Se fosse Ninhonga ainda haveria diálogo. O “i” tem lá sua aplicabilidade. Agora, “Nhonhonga”, francamente... É chamar o sujeito de débil mental, no mínimo. Assim ele vai matar o goleiro.
— De rir. Isso não é motivo, rapaz, não é motivo mesmo. A Graziela chama o Zé Augusto de “Sartrinho” e nem por isso eles se separam.
— “Sartrinho” é elogio, Pereira. Quer dizer que o sujeito é culto, gosta de filosofia e...
— O Zé Augusto nunca abriu um livro na vida, Abelardo. Sartrinho é porque ele é zarolho e parece um sapo, ou tu nunca percebeu? Cavalo!
— Cavalo é você! Não admito que...
— Chamei de cavalo o zagueiro, abilolado. Botou a bola pra escanteio. E outra: nunca ouvi dizer, por exemplo, que o Toquinho ia deixar de fazer música com o Vinícius porque chamava ele por esse apelido depreciativo.
— Grande comparação! Me admira você, Pereira, que acabou o relacionamento com a Ana Rita só porque a moça era lacaniana. E ainda veio com aquela história de incompatibilidade de gênios.
— E não foi? Eu gosto do Freud, ela do Lacan. Incompatibilidade de gênios mais literal, eu desconheço. Isso é coisa que...
— Derruba.
— Que derruba qualquer relação, exatamente.
— Não, derruba o atacante, ele vai marcar o gol. Tira! Isso... Você não conhece a Marly, Pereira. Ela tem mania de apelidos. Sabe como ela chama a nossa casa?
— Residência?
— Não. Lança pro ataque, imbecil! Olha aí, o jumento.
— Lateral... Moradia?
— “Ninho de amor”.
— Não acredito.
— Pois pode acreditar, “ninho de amor”. Ou “ninho”, para os íntimos. “Vamo voltar pro nosso ninho?”
— Não, não acredito que o juiz marcou pênalti, ah lá. Pênalti. Isso não é motivo.
— Como não? O cara só faltou esfaquear o centroavante!
— Não é motivo pra se separar, Abelardo. Se você não gosta de algumas palavras que ela usa, que sentem e conversem sobre o assunto. A Maga, por exemplo. Perdeu o pênalti, uh, uh! Pra fora... A Maga, lembra da Maga? Pois então, ela chamava uísque de “vísque”, pra parecer engraçadinho, sabe como é? Um dia disse pra ela que não gostava e...
— A Maga aceitou? Duvido. Com aquele gênio dela. Fala a verdade: ela parou de falar “vísque”?
— Não, parou de beber. Ih, olha lá, falta pra gente na meia-lua.
— Não vou nem olhar. Com esse daí não vai ser gol nunca. Pra encerrar o assunto de uma vez por todas, Pereira. Sabe como a Marly chama o meu pinto? Adivinha.
— Ah, cara, apelido pra pinto toda mulher...
— “Pimpolho”.
— Não acredito!
— Que foi? Perdeu o gol?
— Não, no apelido. Separa.

30 janeiro, 2008

JEITINHO


— Alô? É o senhor Adroaldo?
— Infelizmente.
— Senhor Adroaldo, nós estamos com sua sogra, sua mulher e seus três filhos. Isso aqui é um seqüestro, tá me entendendo?
— Que absurdo! Deve tá havendo algum engano.
— Como assim? O senhor não tem mulher e filhos?
— Ter, tenho. Mas eu já fui seqüestrado semana passada, companheiro. Duas semanas atrás, foi a minha mãe. Isso já é abuso. Vou ligar pro sindicato de vocês!
— Não vai adiantar, seu Adroaldo. O senhor não tem lido jornais?
— Claro que não. Fiz a assinatura há um mês, porque a moça insistiu tanto, me oferecendo uma promoção em que ganharia patins de gelo e duas clepsidras, mas até agora não chegou nada. Queria até reclamar, mas por algum motivo, logo depois que adquiri uma outra promoção pra essa linha telefônica, em que ganhei dois micos-leões e um moto-contínuo, ela parou de funcionar. Aliás, será que você poderia...
— Não, seu Adroaldo. Isso não é conosco. Nosso departamento é o de seqüestro. O que ia dizer é que não adianta ligar pro sindicato. Ele tá nos apoiando nessa.
— Sei. Em troca de cargos na administração, né? Tudo bem, mas você há de convir que eu já fiz minha parte pelo bem do país. Ontem mesmo levaram meu carro. Três dias atrás paguei os juros do cheque especial. As mensalidades do plano de saúde e da escola das crianças estão em dia!
— Já disse que isso não é conosco, seu Adroaldo. Nós somos do departamento de seqüestro, o senhor é surdo?
— De um ouvido. Tudo bem, eu admito. Não tenho plano de saúde pra mim, meu dinheiro não daria pra família toda. Perdi a audição num atendimento do SUS e...
— Seu Adroaldo! Pela última vez: nós estamos ligando pra pedir o resgate pelos seus familiares! Vamos logo com isso. O senhor sabe quanto custa um interurbano?
— Claro, claro. Eu tenho uma adolescente em casa. Ou melhor, tinha. Quanto é que vocês querem?
— Um milhão.
— Ha, ha, ha! Ai, assim você me mata de rir. Ui, essa foi boa.
— Seu Adroaldo? O senhor tá bem?
— Com certa dificuldade pra respirar. Não ria assim desde que quitei a última parcela do IPTU. Você é bom nisso. Sabia que podia fazer humor?
— Já disse que esse não é o nosso departamento, senhor Adroaldo. Isso aqui é uma organização bem fundada. Deixamos o humor pra ministros e outras autoridades. Como é que é? Quer a família de volta ou não?
— Amigo, vamos ser razoáveis. Eu não trabalho em ONG ou qualquer outra organização sem fins lucrativos pra ter todo esse dinheiro. Será que não podemos negociar? Por exemplo, qual é o preço sem minha sogra?
— O senhor tá pensando que isso aqui é brincadeira, seu Adroaldo? Só negociamos o pacote fechado. O máximo que podemos fazer é dar umas porradas na velha.
— Tudo bem. E divide em quantas vezes?
— Já que o senhor aceitou colaborar, fazemos em seis parcelas.
— Que é isso! Vamos fazer em doze, ahn? E num precinho camarada. Aceita cartão?
— Todos os com juros escorchantes.
— Perfeito. Vamos fazer o seguinte, então: doze mensalidades de cinco mil, no cartão, pode ser?
— A partir do próximo mês?
— Próximo mês, não. Levaram o carro, mas deixaram o IPVA. Vamos fazer pra abril, que tal?
— Eita gente pechincheira! Por essas e outras é que às vezes penso em transferir a empresa pra Escandinávia! Tudo bem, senhor Adroaldo. Doze mensalidades de dez mil, no cartão.
— Oito mil, ahn? Oito mil é um preço justo. Vocês dão nota?
— Por esse preço? O senhor tá louco!
— Certo, certo. Eu entendo. Com uma carga tributária dessas não há ambiente para negócios. Sete mil, sem nota, então. Pagamento pra abril. Tá fechado.
— Oito mil!
— Sete mil e uma orelha a menos de minha sogra. Não se fala mais nisso.
— Ok. Mas o senhor paga o frete. Entregamos a mercadoria amanhã. (desliga)
— Amanhã? (colocando o fone no gancho) Duvido. Daqui a quinze dias mandam um e-mail pedindo desculpas pelo atraso ou dizendo que não havia a mercadoria no depósito. Seja como for, me dei bem. O país pode não ser organizado, mas pelo menos a gente conta com o nosso jeitinho.

28 janeiro, 2008

FÉ, HERESIARCAS!

Senhores, sei que havia grande esperança da parte de vocês, mas o fato é que não morri. Depois de amanhã, dia 30/01, este blog voltará a suas atividades anormais. E quero que a Dercy Gonçalves morra algum dia se eu estiver mentindo. Aguardem.

20 dezembro, 2007

FÉRIAS

Este blog não é professor, mas também ganha pouco e entra em recesso, de maneira que armarei a rede hoje e só voltarei a desarmá-la em janeiro, se o bom Pai assim desejar.

Aliás, por falar n’Ele, caso ainda acreditem no Senhor, peçam ao Onipotente, em suas orações, para não usar tanto de sua caridade e misericórdia para comigo no ano vindouro. Sei que o pobre está um tanto velho, mas tentem explicar a Ele que não sou Jó, por obséquio.

Espero que tenham umas boas entradas e felizes bandeiras. Abraço a todos — sobretudo a todas — e até o próximo ano.

13 dezembro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (FIM DA PRIMEIRA PARTE)


Diante daquela cena, Jesus, cujos recentes acontecimentos [Atendendo a pedidos de fãs do presidente, explicamos: "acontecimento", em linguagem culta, também tem o sentido de "peripécia", "façanha", "aventura"] haviam deixado completamente confuso, se viu como se inteiramente dentro de um livro de Milton: no Paraíso, perdido. Estava certo de que através de algum processo taumatúrgico próprio dos deuses pagãos, o filósofo tinha se metamorfoseado no dramaturgo. Em profundo choque, parecia o governo ou o cabelo de Tônia Carrero: não conseguia se mexer. Somente após alguns instantes, levantando-se, falou:
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— Só... Sócrates?
— Xingamento não, hein? — rebateu Aristófanes, aproximando-se do Senhor. — Tô morto, mas exijo respeito.
— Quem é você?
— Quem é você pergunto eu. Peraí. Essa barba, esses pés, esses cabelos longos... Safo, como você emagreceu!
— Hilário. Prazer, Jesus.
— Ah, o filho do Homem.
— Não, o Filho do homem, a maiúscula é no “f”.
— Taí uma coisa que nunca entendi. Isso e a Santíssima Trindade. Vocês fizeram uma religião muito complicada, rapaz.
— Vocês, vírgula. Culpa de Paulo. Por mim, tinha me mantido no judaísmo mesmo, sabe? Tudo bem, tem aquele lance de não comer carne de porco mas, enfim, é melhor do que comemorar o Natal em família. Peraí, você é grego?
— Um dos últimos. Aristófanes.
— O comediógrafo? Cê sabe que na Índia eu assisti a uma montagem de “Lisístrata”? Lembro até que, na época, Madalena comentou: “Tá vendo o que eu vou fazer se você resolver salvar o mundo de novo?”
— Boa. Você não teria visto Ésquilo por aí?
— Não. Mas, vem cá, você pode me explicar o que tá acontecendo por aqui? Sério. Agora entram maometanos, gregos, até deuses pagãos no Céu!
— Eu entendo a sua revolta. Venho lutando contra o relativismo cultural você não era nem nascido, meu jovem. Depois do século XIX , nem Deus escapou. Dizem até que Nietzsche teria acorrentado teu pai e agora seria o comandante do Paraíso...
— Impossível, falei com Papai há pouco.
— Bom, é o que espalham por aí. Eu também não dou ouvidos à Fama.
— Tá, tudo bem. E como é que você veio parar aqui, pode dizer?
— Então... Há alguns séculos já os caminhos que ligam o Hades ao Céu cristão foram desimpedidos. Que se há de fazer? Há muito antropólogo no mundo.
— Isso quer dizer que você sabe como sair do Céu?
— Ora, mas é claro. Por quê?
— E saberia como chegar à Terra?
— Não diga! Você quer voltar lá? Que é que você quer fazer lá, por Apolo?!
— Ajuda ou não ajuda?
— Claro. Com uma condição.
— Qual?
— No caminho eu te explico...
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Aristófanes indicou a ponta da praia oposta à praça em que o Senhor estivera antes com os patriarcas, e os dois seguiram caminhando pela beira da praia. Já tinham se afastado bastante quando a cabeça de Sócrates ressurgiu de debaixo da terra. Cuspindo areia, o filósofo lamentou:
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— Por Atena! Antigamente eles pelo menos ofereciam cicuta antes de enterrar a gente!

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